Robert Kurz: Economia Política do Antissemitismo: o pequeno-aburguesamento do pós-modernismo e o retorno da utopia do dinheiro de Silvio Gesell
Economia Política do Antissemitismo: o pequeno-aburguesamento do pós-modernismo e o retorno da utopia do dinheiro de Silvio Gesell
Robert Kurz
1.
As utopias da mercadoria contra a economia monetária capitalizada. Este é o caso dos intérpretes utópicos do trabalho do economista clássico David Ricardo: as mercadorias como produtos do trabalho devem “relacionar-se diretamente” (sem a intervenção do dinheiro) “umas com as outras como produtos do trabalho social”, como observou criticamente Marx. Mas isso seria uma contradição de termos: “os produtos devem ser produzidos como mercadorias, mas não trocados como mercadorias” (Marx). Esta falsa utopia do trabalho foi invertida por Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), com base nos mesmos fundamentos ideológicos, numa utopia igualmente falsa das mercadorias: todas as mercadorias deveriam tornar-se imediatamente “dinheiro”, ridicularizada por Marx como a utopia burguesa de que “todos os católicos deveriam tornar-se papas”. Pois a separação do dinheiro como uma “mercadoria geral” é precisamente o pré-requisito para trazer mercadorias qualitativamente diferentes a um denominador abstrato e, assim, torná-las compatíveis umas com as outras.
A proposta absurda de Proudhon de emancipar o trabalho “honesto” e as mercadorias “honestas” da dominação do dinheiro por meio de uma troca “direta” de mercadorias usando “dinheiro-trabalho” na verdade equivale ao paradoxo de querer abolir as condições de produção de mercadorias e, ao mesmo tempo, continuar a produzir mais mercadorias. A tentativa de privar o dinheiro justamente da qualidade de ser uma “mercadoria geral” (a rainha das mercadorias), que o torna dinheiro em primeiro lugar, é uma contradição de termos. O sujeito esquizofrênico da mercadoria quer escapar para o lado supostamente “concreto” do trabalho e da mercadoria e se livrar completamente de seu alter ego, o sujeito abstrato do dinheiro, ou pelo menos controlá-lo, sem atacar a base social que deu origem a essa divisão em primeiro lugar. O sujeito burguês quer abolir a sociedade burguesa sem abolir a si mesmo como sujeito burguês. As tentativas de Proudhon de superar o poder incompreensível do dinheiro por meio de “bancos do povo”, com a ajuda dos quais mercadorias seriam trocadas por “crédit gratuit”, inevitavelmente terminaram em desastre prático.
A frágil utopia do dinheiro que deixa de ser dinheiro sempre deriva os males e catástrofes do modo de produção capitalista não do fim em si mesmo do trabalho abstrato, mas unicamente do fim em si mesmo do dinheiro, embora um não seja mais que a contraface do outro. Não é a racionalidade empresarial subjacente, com seu potencial destrutivo, que se torna alvo de críticas, mas apenas a suposta falta de justiça distributiva e de troca no nível de distribuição e circulação. Com o crescimento da produção capitalista e da racionalidade empresarial, o modo capitalista de distribuição e circulação deve ser abolido. Assim, o que aparece como “capitalismo” não é o capital real ou produtivo da indústria, do agronegócio e dos serviços, mas tão somente o capital portador de juros da superestrutura financeira concentrada no sistema bancário.
Para Proudhon, o famoso “mais-valor” não surge da racionalidade econômica da produção, mas da posição privilegiada do dinheiro (e, portanto, do seu possuidor) na troca. Essa ideia foi retomada e desenvolvida no início do século XX pelo empresário e teórico monetário teuto-argentino Silvio Gesell (1862-1930) em sua chamada teoria da economia livre. Quase as mesmas visões podem ser encontradas no mistagogo e antropósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) em sua propaganda de uma suposta ordem econômica “natural”. Menos conhecido, mas não menos influente na década de 1920, foi o economista de seita alemão Gottfried Feder, que essencialmente também defendia ideias semelhantes. Seguindo Proudhon, seus descendentes econômicos, nas palavras de um geselliano contemporâneo, também veem a “desvantagem daqueles que fornecem trabalho e mercadorias (e que demandam dinheiro) em comparação aos privilegiados que fornecem o dinheiro (e que demandam trabalho e mercadorias)” como pedra de toque (Dieter Suhr, Geld ohne Mehrwert, Frankfurt au Main, 1983, p. 14).
2.
Qual é, então, o “privilégio” do dinheiro que é uma pedra no sapato dos antagonistas do capital portador de juros? Proudhon já o identificava simplesmente como o poder do dono do dinheiro de escolher o momento mais favorável para a troca, enquanto os fornecedores de mercadorias e trabalho dependem de transações imediatas para poderem adquirir o “equivalente geral” (dinheiro) e obter o poder de compra. Por meio desse poder, o dono do dinheiro poderia “impor uma barreira” ao processo de mercado, a qual ele cobraria uma taxa especial para liberar – justamente os juros que os agentes econômicos “produtivos”, os verdadeiros mediadores do mercado, teriam que pagar. Proudhon não consegue conceber que esse poder especial do dinheiro, sua posição privilegiada no mercado, não é um “anomalia” ou “arrogância” (nem por certo surge da subjetividade do dono do dinheiro), mas que na verdade provém da necessidade de um sistema produtor de mercadorias de representar e mediar a si mesmo por meio de um equivalente geral.
Os herdeiros programáticos de Proudhon não se arriscaram mais a patinar no gelo fino dos conceitos teóricos político-econômicos reflexivos, em sentido estrito. Mantendo sua mentalidade de “bricolagem” e de “artesanato” social, eles preferiram justificar o poder especial do dinheiro sobre o trabalho e as mercadorias apenas em termos puramente “técnicos” ou quasi-físicos. Segundo o argumento de Silvio Gesell, o dinheiro, diferentemente das mercadorias, não se deteriora e nem consome custos de subsistência como a força de trabalho; portanto, não tem custo de armazenamento ou “manutenção” (Silvio Gesell, Die natürliche Wirtschaftsordnung, 6ª edição, Berlim e Bern, 1924, p. 317ss). O neogeselliano Helmut Creutz, indicado a uma espécie de “Prêmio Nobel alternativo”, também vê nisso o problema fundamental:
Imagine que as portas de um cofre contendo dez mil marcos ficam fechadas por 14 dias, assim como as portas de um mercado com mercadorias no valor de dez mil marcos, e as portas de uma sala com cinco pessoas que normalmente ganham dez mil marcos em 14 dias. Se as portas forem abertas após 14 dias, os cinco ocupantes da sala provavelmente estarão mortos, as mercadorias no mercado estarão em grande parte estragadas, mas as notas no cofre estarão novinhas em folha. (Helmut Creutz, Das Geld-Syndrom, Frankfurt au Main e Berlim, 1994, p. 32).
Essa propriedade do dinheiro, ou seja, não ter custos de manutenção, agora está sendo explorada pelos donos do dinheiro para exigir esse “imposto” na forma de juros dos agentes produtivos do mercado, para receber uma “renda sem trabalho” injustificada e para impor barreiras à produção e a troca. Enquanto o “capitalismo dos donos do dinheiro” prevalecer na forma de capital portador de juros, o fluxo de trabalho e dinheiro, com a crescente estagnação do fluxo de mercadorias, só poderá ser mobilizado por meio de recursos “artificiais” nocivos como a inflação, às custas dos que geram renda produtiva e da sua poupança, enquanto o polvo do capital financeiro se protege aumentando seu “pedágio”.
Rudolf Steiner e, sobretudo, Silvio Gesell (que desenvolveu essa abordagem mais a fundo), agora propõem uma típica panaceia, que Marx já havia descrito simplesmente como “truques monetários” no caso dos ricardianos de esquerda utópicos do trabalho e de Proudhon. Steiner e Gesell, no entanto, não querem mais sujar as mãos com os “bancos de câmbio” de Proudhon e sim trapacear a lógica do dinheiro através de uma “engenhoca” administrativa como as do Professor Pardal. O dinheiro atual deveria ser substituído por um “dinheiro perecível” (Steiner) ou por “notas bancárias enferrujáveis” (Gesell), precisamente o “dinheiro grátis” dos encanadores econômicos alternativos. O que isso significa e como esse dinheiro “enferrujado” se distingue da inflação comum?
Gesell propõe que todas as notas em circulação (e saldos bancários líquidos) sejam automaticamente sujeitas à desvalorização a uma taxa de aproximadamente 5% ao ano (“dinheiro em depreciação”). Elas só retêm seu valor nominal se forem periodicamente carimbadas com um selo de valor correspondente ou seladas mediante o pagamento de uma taxa. Essa medida tornaria o dinheiro sujeito a certos “custos de manutenção” no futuro, de modo que o proprietário do dinheiro perderia sua vantagem sobre os proprietários de mercadorias e a força de trabalho. Por outro lado, todo o dinheiro que é depositado no sistema bancário como poupança por um período mais longo, e que serve como base para empréstimos sem juros, também deve ser automaticamente poupado dessa “deterioração” ou “depreciação” do dinheiro circulante. Dessa forma, Gesell acredita que pode matar três coelhos com uma cajadada só: primeiro, a economia será estimulada porque não haverá mais incentivo para reter o dinheiro e render juros sobre ele, assim, todos se esforçarão para gastá-lo imediatamente na economia real, a fim de evitar os “custos de manutenção” administrativos. Em segundo lugar, embora os juros devam ser eliminados sem reposição, haveria um incentivo real para poupar, porque o dinheiro depositado estaria isento da “depreciação” administrativa das notas em circulação e dos ativos líquidos. E em terceiro lugar, finalmente, a moeda como tal poderia, dessa forma, permanecer completamente estável, porque o padrão de poder de compra e de crédito se tornaria imutável. O mal do capital portador de juros desapareceria, o dinheiro perderia sua vantagem sobre outras mercadorias e ainda seria capaz de cumprir suas funções necessárias, e a base para a prosperidade e estabilidade perpétuas seria lançada. Eis a sua fórmula mágica.
3.
É inevitável que essa solução supostamente “inteligente” apele ao positivismo do senso comum econômico “saudável”, que aceita irrefletidamente as categorias do moderno sistema produtor de mercadorias como axiomas, mas que gostaria de vê-las ordenadas de forma diferente e mais “sensata” em tempos de crise. “Caminhos para uma economia de mercado livre de crises” (Helmut Creutz), essa utopia burguesa fala ao coração da alma da mercadoria. A economia oficial geralmente não aceita a fórmula mágica geselliana porque ela não tem mediação teórica nem prática no contexto da contabilidade nacional; além disso, não colaborou para a sua respeitabilidade acadêmica que os gesellianos tenham logo adquirido o aspecto de uma seita tipicamente bizarra (como os antroposofistas) de transformação mundial. Mas, ainda assim, foi ninguém menos que John Maynard Keynes (1883-1946), por muito tempo considerado um papa da economia, quem teceu em várias páginas de sua obra principal, “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” (1936), longos elogios a Gesell e suas ideias. Os neogesellianos de hoje, não sem orgulho, apontam isso e se deleitam em fazer insinuações obscuras de que a “verdadeira” análise do capital de Keynes e seu conceito “real” estão sendo abafados justamente por causa de sua concordância com a fórmula mágica de Silvio Gesell.
A afinidade eletiva entre Keynes e Gesell é facilmente explicada. Como todos os economistas do sistema fetichista moderno, eles seguem o senso comum da mercadoria e se abstêm até mesmo de questionar criticamente as categorias reais existentes do “trabalho”, valor, mercadoria, dinheiro e mercado como tais: “o Homem” é sempre tomado como um ser produtor de mercadorias. A preocupação particular de Keynes, no entanto, era, como bem se sabe, desenvolver uma teoria de gestão de crise com base nesse sistema produtor de mercadorias, visando superar a estagnação ameaçadora (e manifesta na década de 1930) da produção capitalista e do processo de mercado e garantir sua liquidez permanente. Keynes reconhece que o dogma clássico e neoclássico dos “poderes de autocorreção do mercado” e do estabelecimento automático de um equilíbrio entre oferta e demanda, pressupondo a ausência de “intervenções extraeconômicas”, tinha que ser considerado uma falsidade. Ele queria estimular a reprodução baseada em mercadorias, que estava se esgotando, por meio de uma demanda estatal artificial (e, se necessário, completamente sem sentido em termos de conteúdo e qualidade). É claro que, dadas as condições, a inflação monetária tinha que ser aceita; e este foi também o ponto crucial do keynesianismo do pós-guerra, que em última análise contribuiu para a viragem “monetarista” sob o signo da Escola de Chicago de Milton Friedman. Não é de se admirar que Keynes já cobiçasse a fórmula mágica de Silvio Gesell desde o início, embora mais tarde ela não tenha prevalecido na escola e política econômica keynesiana atuais.
O fetichismo protestante do trabalho na modernidade e o fim em-si-mesmo econômico do trabalho no sistema produtor de mercadorias são explicitamente afirmados por Keynes e também por Gesell. Keynes chegou ao ponto de defender, se necessário, cavar e tapar buracos pra gerar “renda” monetária e manter viva a produção de mercadorias. Dessa natureza tautológica do “trabalho” decorre, no contexto do sistema produtor de mercadorias, a necessidade de uma “ocupação” (o próprio termo faz lembrar os esforços terapêuticos de um asilo mental) no quadro da racionalidade empresarial: sem considerar o significado da ação e sem considerar critérios sensíveis e estéticos. A suposta autodeterminação do homem é a priori concebida apenas sob o ditame da forma total da mercadoria e seus critérios tautológicos abstratos. As pessoas são supostamente incapazes de se tornar autônomas por serem supostamente impelidas “naturalmente” ao “trabalho” abstrato e às leis do mercado.
Os gesellianos, assim como Keynes, não questionam de forma alguma a loucura tautológica do trabalho abstrato. Eles estão preocupados (mais do que Keynes, que pensava em termos de funcionalidade do sistema) apenas com a “justiça distributiva” com base no próprio sistema fetichista do trabalho-mercadoria-dinheiro. Já na frase de abertura de sua obra principal, Silvio Gesell expressa esse objetivo limitado, que, aliás, também prevaleceu no movimento operário: “A eliminação da renda sem trabalho […] é o objetivo econômico imediato de todos os esforços socialistas.” (Silvio Gesell, op. cit., p. 3); é exigido, também de acordo com a ideologia de massas do século XIX, o famoso “direito ao produto integral do trabalho” (op. cit., p. 10). E como a violação dessa “justiça” é derivada exclusivamente da esfera da circulação e dos juros, a racionalidade econômica, juntamente com a tautologia do “trabalho” e da “ocupação”, também passa ao largo de qualquer crítica. Essa racionalidade não é percebida como tal e na sua lógica destrutiva, mas também apenas sob a lente de justiça distributiva; o capitalista industrial ou os gestores aparecem como funcionários necessários e sua renda como justificada, por exemplo, no sentido do “espírito empreendedor” de Schumpeter (responsável pelo “risco”, inovação, etc.). Os gesellianos derramaram lágrimas de emoção pelos jovens empreendedores “criadores de empregos” que, junto com seus assalariados, estão supostamente sendo explorados pelos insidiosos magnatas do capital financeiro e impedidos de realizar seu abençoado trabalho.
No entanto, a racionalidade empresarial não perde suas qualidades destrutivas pelo desaparecimento dos juros, como imaginam os gesellianos. A lógica basal da “valorização do valor”, que constituiu essa relação econômica abstrata e dessensualizada (em contraste com outras formas de atividade produtiva humana e relacionamento com a natureza), não é um produto do “pedágio” exigido de dinheiro em circulação. Em vez disso, é a produção abstrata de lucro no nível da própria produção material que torna possível, em primeiro lugar, um sistema abrangente de produção de mercadorias que abarca toda a reprodução social. Os gesellianos já pressupõem uma produção geral e total de mercadorias e todas as categorias a ela associadas, sem nunca levar em conta sua “condição de possibilidade”.
Na realidade, o capital mercantil e o capital portador de juros existem há milhares de anos como nichos sociais marginais, sem nunca darem origem a um sistema produtor de mercadorias. Somente quando, a partir do Renascimento e, especialmente, durante a Revolução Industrial no final do século XVIII, a própria produção material foi organizada de acordo com o modelo de produção abstrata de lucro, os critérios modernos de “trabalho”, “emprego” e economia de mercado puderam se desenvolver gradualmente como determinantes sociais gerais. Os gesellianos, para quem “mais-valor” é um sinônimo para o odiado juro, querem manter essas disposições sem seu próprio pressuposto lógico. Se não houver mais produção abstrata de lucro (“mais-valor”), então não haverá mais sistema produtor de mercadorias, nem “emprego”, nem “trabalho”. A produção social generalizada de mercadorias só é possível por meio de um retorno do trabalho abstrato sobre si mesmo, isto é, por meio da transformação incessante do trabalho vivo e processual em trabalho morto, “encarnado” na forma de mercadoria e dinheiro como o outro de si mesmo. Este processo é determinado lógica e praticamente pela produção de “mais-valor”, que em sua essência não pode ser reduzido ao problema secundário da distribuição de renda, mas que, na verdade, dá origem à forma monetária geral de renda em primeiro lugar. A incompreensão da relação entre mercadoria e dinheiro, com base na qual é negado ao dinheiro seu domínio sobre as mercadorias, leva necessariamente a uma incompreensão da relação entre dinheiro e mais-valor, segundo a qual o “mais-valor” entendido meramente como um tributo ao capital portador de juros deve ser abolido e, no entanto, absurdamente, um sistema geral de produção de mercadorias e de mediação pelo dinheiro deve ser mantido.
4.
Como os gesellianos já ignoram o problema fundamental da produção social moderna de mercadorias, sua famosa fórmula mágica não consegue explicar nem resolver a crise ecológica atual. A indiferença do sistema produtor de mercadorias ao conteúdo sensível e às consequências ecológicas da produção resulta não apenas das demandas de juros do capital financeiro, mas também das abstrações sociais da forma geral da mercadoria e da própria racionalidade empresarial. Trabalho forçado, trabalho e “emprego” como um fim em si mesmo para manter o sistema de produção de mercadorias funcionando permanentemente (um objetivo declarado dos gesellianos) já implicam indiferença ao conteúdo, porque os objetivos são o “emprego” e a renda monetária como tais, mas não a questão do significado qualitativo e da compatibilidade ecológica dos custos de trabalho. Na economia geselliana não há um senso explícito para isso, assim como há na economia burguesa em geral, mas apenas desejos piedosos acrescentados a posteriori.
A consequência da racionalidade empresarial de “externalizar” custos para a natureza não desaparece junto com a pressão externa de render juros. A produção continua sendo uma atividade particular, “empreendedora”, socialmente mediada apenas pelo mercado. No entanto, isso também limita economicamente o incentivo para uma redução de custos empresariais em detrimento dos recursos naturais. E tanto a indiferença ao conteúdo tautológico do trabalho quanto a externalização econômica dos custos materiais para a natureza sensível e estética são executadas por meio da coerção da concorrência. A concorrência, no entanto, é particularmente sagrada para os gesellianos, e aqui eles até convergem com o neoliberalismo radical de mercado. Silvio Gesell já reivindicava: “no caminho para um redesenho direcionado, é importante eliminar todos os privilégios que possam falsificar o resultado da concorrência sem deixar vestígios” (Gesell, op. cit., p. XI); e esta adulação da concorrência de mercado também é ecoada de uma ou outra maneira por todos os neogesellianos (ver, por exemplo, Klaus Schmitt, “Geldanarchie und Anarchofeminismus”, In. Silvio Gesell, “Marx” der Anarchist?, Berlim, 1989, p. 220ss).
Da mesma forma, o imperativo de crescimento capitalista não desaparece junto com os juros. Uma vez que a produção econômica abstrata do lucro (na forma limitada à distribuição de Gesell, referida apenas como o “produto do trabalho” da atividade econômica) já é o pré-requisito para uma universalidade social do trabalho, da mercadoria e do dinheiro, ela requer, com a produção excedente permanente, um crescimento ecologicamente destrutivo contínuo; e a concorrência também opera um papel nessa compulsão. O próprio Silvio Gesell, para quem o problema da abstração de mercadorias a partir dos recursos naturais não desempenhava nenhum papel, ao contrário de Marx, não tinha a menor objeção ao crescimento contínuo dos “bens materiais”; para ele, como apóstolo de ordens supostamente “naturais”, tudo era mais uma vez uma questão “natural”:
Tudo na natureza humana, assim como na natureza da economia, nos impulsiona para uma reprodução imparável (!) do chamado capital real (bens materiais), uma reprodução que não cessa nem mesmo com a abolição completa dos juros. (Gesell, op. cit., p. 350)
Enquanto os neogesellianos de hoje, como Helmut Creutz, Dieter Suhr, Klaus Schmitt ou a prolífica planejadora urbana geselliana Margrit Kennedy (cf. M. Kennedy, Geld ohne Zinsen und Inflation, Munique, 1994, p. 97ss), diante da crise ecológica, correm para transferir o imperativo do crescimento como tal para os juros do capital monetário e buscam rapidamente acrescentar alguns aspectos ecológicos à sua alegre utopia burguesa do trabalho de as mercadorias, o próprio mestre via o “pedágio” dos juros do dinheiro exatamente como o oposto, como um impeditivo ao crescimento; aqui novamente, ele está em completa harmonia com o fetichista do crescimento Keynes, que ignorava completamente o problema ecológico.
5.
A compreensão da crise econômica dos economistas do livre mercado é tão ruim quanto sua compreensão ecológica. Ao reduzir novamente o problema à crítica do capital portador de juros, eles estão, na verdade, invertendo a questão. É claro que toda pessoa preocupada com o trabalho, a mercadoria e o dinheiro, só percebe que algo está errado quando há uma crise monetária (principalmente quando ela atinge seu próprio bolso). Contudo, é fácil demonstrar que o ponto de partida da crise econômica não se encontra no plano monetário, e sim na racionalidade econômica do próprio modo de produção; certamente não no nível da distribuição de renda (em essência, o único ponto de vista tacanho dos gesellianos), mas como uma autocontradição lógica do sistema na produção da forma fetichista “valor”.
Essa contradição fundamental consiste no fato de que, por um lado, a criação tautológica de valor da racionalidade econômica só pode ser alcançada por meio do “trabalho” ou de quantidades de trabalho (ou seja, por meio da transformação do “trabalho” em sua forma abstrata e geral de encarnação social, o dinheiro) e, no entanto, a mesma racionalidade econômica, através de um processo secular, impulsiona a transformação do “trabalho” em algo supérfluo por meio da ciência natural aplicada. Esta “cientificização da reprodução” é por sua vez executada através das restrições da concorrência. Dessa forma, o sistema moderno produtor de mercadorias tem uma tendência inerente de minar sistematicamente seu próprio fundamento, que não se origina do capital portador de juros, mas dos processos “produtivos” mediados pela concorrência que os gesellianos defendem e afirmam.
Essa tendência já era perceptível desde o início da produção moderna. Nos ciclos de produção econômica e nas rupturas estruturais causadas pelo desenvolvimento das forças produtivas na indústria, surgia uma situação em intervalos de tempo mais ou menos longos, que se apresentava como uma “crise”, na qual os lucros gerados pela produção industrial não podiam mais ser reinvestidos de forma lucrativa devido à falta de oportunidade para expansão dessa mesma produção (chamada na teoria da crise de Marx de “superacumulação” de capital industrial). Os lucros industriais então pressionavam pelo investimento na superestrutura financeira e de crédito, na especulação imobiliária e de ações, etc. Assim, várias vezes na história capitalista, surgiu uma bolha financeira especulativa, cujo estouro acabou por desvalorizar o “capital fictício” (Marx) que havia sido acumulado num movimento de acumulação fictícia puramente no setor financeiro, sem ter passado pela produção industrial real de mercadorias e sua venda no mercado.
Em sua crítica ao capital portador de juros e à especulação “improdutiva”, os gesellianos invertem a lógica do processo real e confundem o efeito com a causa. Embora afirmem que é o tributo da produção industrial de mercadorias ao capital portador de juros e seu crescimento especulativo que causa a estagnação da produção real, semelhante à crise, a realidade é precisamente o inverso: a estagnação da produção real de mercadorias, devido às suas próprias contradições internas, faz com que os lucros obtidos na forma monetária em períodos de produção passados fluam para os setores financeiro e especulativo. É o próprio capital industrial que, em última análise, desencadeia o processo especulativo do “capital fictício”.
Esse fato é ainda mais evidente hoje. É plenamente evidente que a nova crise da sociedade do trabalho capitalista desde o início da década de 1980, que há muito ultrapassou todas as crises anteriores meramente cíclicas e que marca o limite do sistema moderno de produção de mercadorias em geral, foi provocada pelo potencial de racionalização qualitativamente novo da revolução microeletrônica. Hoje, portanto, é particularmente ridículo culpar a decolagem dos mercados financeiros por um suposto poder independente da especulação e do capital portador de juros, em vez de atribuí-la à nova qualidade da cientificização, que agora reduziu irreversivelmente ao absurdo a categoria de “trabalho” produtor de mercadorias, o santuário dos gananciosos gesellianos.
6.
O mesmo problema também surge no nível da atividade e do crédito estatal. Ambos são, novamente, sumariamente rejeitados e combatidos por Silvio Gesell, bem como pelos neogesellianos, em estreita harmonia com o neoliberalismo radical de mercado. A atividade estatal deveria desaparecer completamente ou seus recursos restantes deveriam ser financiados pelo famoso crédito sem juros da poupança “honesta”. Assim como os economistas liberais, os tacanhos utopistas do dinheiro reconhecem que é o progresso de sua amada economia de mercado, mesmo em processo de cientificização, que está produzindo um novo nível de autocontradição na produção social de mercadorias. Como as crescentes condições infraestruturais e os crescentes custos socioecológicos da produção total de mercadorias não podem mais ser financiados por meio de receitas estatais regulares, o “capital fictício” do crédito estatal inevitavelmente se torna uma fonte estrutural separada da superestrutura financeira capitalista improdutiva e da especulação com títulos estatais. Assim como na esfera comercial, é o próprio processo “produtivo” de produção de mercadorias e sua cientificização que produz esses fenômenos, e não a ação independente do capital portador de juros.
No que diz respeito à atividade e ao crédito estatal, os gesellianos também invertem causa e efeito e, como todos os burgueses comuns, preocupam-se com “seu” dinheiro, que querem continuar a “ganhar” independentemente das contradições dentro do sistema. Eles não podem nem querem perceber que, com o aumento da cientificização, a produção de mercadorias será, em qualquer caso, estrangulada pelos custos de sua própria infraestrutura, e que um “crédito sem juros” não mudaria nem um pouco esse problema. Mesmo assim, a “poupança honesta” não levantaria dinheiro suficiente para financiar a estrutura social da produção de mercadorias sem prejudicar gravemente os investimentos “produtivos” e a renda privada.
Dada a natureza burocrática e repressiva de qualquer atividade estatal, certamente faz sentido substituir a atividade estatal pela atividade autônoma e autodeterminada do povo; mas somente com a abolição do próprio fetiche da produção de mercadorias e, portanto, da economia de mercado, do “trabalho”, “emprego”, etc., que não são nada autônomos e sim ditados pelas leis coercitivas da forma da mercadoria. Mais uma vez, os utopistas do dinheiro querem apenas se livrar de um lado do sistema (o Estado, o crédito estatal) para se agarrarem ainda mais desenfreadamente ao outro lado (“o trabalho”, a produção de mercadorias); novamente, eles querem a economia de mercado sem seus próprios fundamentos.
7.
Assim, fica claro que a utopia geselliana do dinheiro abstrai completamente a contradição entre a produção de mercadorias, de um lado, e a crescente cientificização, automação, racionalização, etc. no núcleo produtivo do sistema, de outro. Seu ponto de partida não é a análise do processo histórico, concreto e real, com todas as suas contradições, mas o sujeito abstrato do trabalho e do dinheiro, desvinculado de suas próprias condições históricas; “o Homem”, portanto, é acriticamente pressuposto como um indivíduo isolado, um átomo social numa busca mercantil pelo seu “interesse próprio”. Essa abstração axiomaticamente vazia e ahistórica é a marca registrada de todas as teorias e utopias burguesas modernas desde o século XVIII.
Não é surpresa, então, que Silvio Gesell não se envergonhe de invocar mais uma vez em seu mundo modelo a figura da primeira reflexão econômica da modernidade, Robinson Crusoé. A figura solitária de Robinson deve demonstrar, independentemente de qualquer desenvolvimento social real, em seu corpo abstrato e esquálido (ou mesmo no de uma “Sexta-Feira”, que deve necessariamente ser apresentada como a segunda pessoa econômica fundamental), à maneira de um tipo ideal exemplar, “o” cálculo econômico e sua lógica, com a qual o “Homem” seria então “provado” como um perene ser produtor de mercadorias. Neste modelo de mundo abstrato e imaginário, os problemas do modo de produção capitalista moderno, socializado e cientificizado são tratados usando o exemplo de um marinheiro náufrago que, em uma ilha solitária, “curte peles”, preenche “um buraco no chão” com grãos como suprimento, etc. (Gesell, op. cit., p. 313ss).
Se esse absurdo tem algum sentido socioeconômico, é o de uma ideologia embaraçosa e descaradamente “pequeno-burguesa” em seu sentido clássico. De fato, por trás da utopia do dinheiro de Gesell, pode-se, na melhor das hipóteses, imaginar um tipo ideal de pequeno produtor para quem as forças da cientificização capitalista são estranhas ou até mesmo misteriosas, e que se apega ao “trabalho honesto” em seu pequeno barraco miserável por um “mercado honesto” e um “bom dinheiro”, poupando-se das contradições, crises e catástrofes de uma produção de mercadorias altamente racionalizada e globalizada. Esse tacanho idiota econômico, que, claro, não merece nada além de ser devorado pela economia de mercado (sua adorada noiva ideal) em sua forma real e horrenda, não passa de um anacronismo. No seu cerne, a utopia do dinheiro de Gesell teria que ser decifrada como uma espécie de utopia do sapateiro, padeiro, fazendeiro e açougueiro, que só teve uma base socioeconômica significativa na sociedade até meados do século XX.
De fato, o “exemplo de sucesso” citado repetidamente pelos gesellianos localiza-se nesse nível. Durante a grande depressão, a pequena comunidade tirolesa de Wörgl introduziu temporariamente um “dinheiro em depreciação” na forma de “certificados de trabalho” em 1932, a pedido de seu prefeito, Unterguggenberger. A depreciação anual de 12% tinha que ser compensada pelo respectivo proprietário da nota no final do mês, através da aposição de um selo com uma taxa igual ao valor da perda. O município, essencialmente falido, usou esse “dinheiro de emergência”, para o qual foi depositado um tipo de cobertura em xelins (correspondente ao valor nominal), para financiar algumas “medidas de emprego” municipais típicas, como a construção de uma pista de esqui. Uma parcela significativa dos salários dos trabalhadores era paga com esse dinheiro em depreciação, que então era colocado em circulação. O município também trocava as notas por xelins “normais” a qualquer momento, embora com exceção da perda e apenas sujeito a uma dedução adicional de 2%.
Então qual foi o efeito real? O dinheiro em depreciação era aceito por alguns fazendeiros, comerciantes de leite, padeiros, lojas de esquina, etc. Para se livrar do dinheiro em depreciação, eles o usaram imediatamente para pagar impostos pendentes ao município, como, por exemplo, o imposto sobre cães. Cerca de um terço das notas desapareceram, por exemplo, por terem sido vendidas a colecionadores como itens de colecionador. Uma vantagem para a comunidade, embora em flagrante contradição com a teoria do dinheiro grátis, porque eliminou a obrigação de trocar essas notas; assim, um lucro líquido para o tesouro municipal (todas as informações de acordo com: Alex von Muralt, Der Wörgler Versuch mit Schwundgeld; ein 1933 bezeichnenderweise in der konservativen Zeitschrift “Ständisches Leben” erschienener wohlwollender Bericht. Reimpresso em: Klaus Schmitt, op. cit., p. 275ss). O efeito reparador temporário na economia, indubitavelmente existente, difere pouco do de outras “medidas de emprego”. É mais do que duvidoso extrapolar para toda uma economia industrial a construção instável da (então) comunidade rural de Wörgl, com uma população de 400 habitantes. O curto período de tempo também não permite tirar conclusões convincentes sobre um “sucesso” fundamental e duradouro. O fato de o Banco Nacional Austríaco ter logo proibido o experimento Wörgl por preocupações com sua soberania monetária deu aos gesellianos motivos para criar lendas até hoje. Tendo em vista o desemprego em massa estrutural atual, sob as condições da revolução microeletrônica e das relações econômicas globalizadas que se estendem até as menores cidades, o “modelo Wörgl” não pode mais ser aceito seriamente.
Mas essa débil utopia monetária pode, numa espécie de projeção, certamente cumprir uma função ideológica mais ampla e, paradoxalmente, experimentar um renascimento fantasmagórico, especialmente nas condições de crise atuais. Não é preciso que pequenos agricultores e artesãos “independentes” ou pequenas cooperativas produtoras de mercadorias sejam considerados lugares onde tal ideologia celebre sua alegre ressurreição. Num nível de abstração mais alto, todo sujeito da mercadoria pós-moderno hoje, independentemente de qual seja sua atividade, é, em certo sentido, um tipo ideal pequeno-burguês. Certamente não se trata mais de uma pequena-burguesia produtora “independente”, mas de um átomo de vontade em luta, em relação com o movimento total do mercado mundial do capital em seu processo geral cego.
Com o fim da antiga luta de classes, que ainda pertencia ao movimento histórico ascendente do sistema produtor de mercadorias, e com o surgimento do sujeito-mercadoria puro, semelhante a uma mônada, no estágio de decadência da modernidade, fenomenologicamente abreviado e afirmativamente descrito por Ulrich Beck e outros como um processo de “individualização”, em certo sentido, todo ser humano abstrato se tornou, em corpo e mente, seu próprio lixo miserável. Todos agora se comportam, de fato, precisamente como seres socializados na forma de mercadorias, como uma espécie de Robinson Crusoé, sempre encalhado na ilha de seu solitário eu-mercadoria, e “os outros” aparecem como seres quasi-naturais silenciosos, com quem a comunicação só é possível por meio de atos reais ou simbólicos incessantes de compra e venda. É claro que esse Robinson Crusoé não é “o” eterno homem produtor de mercadorias, mas sim o miserável produto final de um certo desenvolvimento histórico, que está em flagrante contradição com as forças produtivas que foram levadas a cabo por esse mesmo desenvolvimento. A burguesia finalmente enlouquecida: ele não é mais o açougueiro gordo que grunhe pesadamente, toma banho tranquilamente na caldeira de salsichas aos sábados e preside o clube de tiro, mas o lobo solitário endinheirado, esguio e bem-apessoado, em busca ofegante e voraz de um “nicho de mercado” – não importa qual.
Esse sujeito sem subjetividade pós-moderno nada pode fazer na prática contra a primitiva utopia do dinheiro de Gesell e “acredita” nela tão pouco quanto “acredita” em qualquer outra coisa (exceto na perpetuidade da economia de mercado); mas essa utopia economicamente instável poderia muito bem ser instrumentalizada ideologicamente em seu próprio benefício contra concorrência assassina. As conexões e sobreposições entre os neogesellianos e o neoliberalismo radical de mercado não são coincidência. Se escovarmos a contrapelo essa ideologia, encontraremos seus fundamentos sinistros num manchesterismo severo, até mesmo num darwinismo social aberto. O próprio mestre não escondia isso: “a Escola de Manchester estava no caminho certo, e o que Darwin mais tarde incorporou a essa doutrina também estava correto.” (Gesell, op. cit., p. XI). Ele não poderia ter sido mais claro. Gesell não relativiza essa afirmação; sua única crítica ao capitalismo real e histórico de Manchester é que ele ainda não conhecia a fórmula mágica de Gesell e que ele “distorceu”, através dos falsos “privilégios” do dinheiro e, portanto, do capital portador de juros, a concorrência social darwinista pura. E a chamada justiça distributiva só pode ser entendida nesse sentido bárbaro: “mas aqui estamos lidando com o direito ao produto integral do trabalho, concedido por meio de concorrência.” (Gesell, op. cit., p. 12).
A propaganda contra qualquer tipo de “prerrogativa” ou “privilégio” é tão antiga quanto o próprio modo de produção capitalista, tendo seus protagonistas adotado esse argumento contra a antiga sociedade feudal e seus remanescentes. Ao mesmo tempo, por trás desse argumento se esconde a subjugação implacável de todos os impulsos humanos às leis totalitárias do novo sistema fetichista de produção de mercadorias e da concorrência no mercado, o que, na melhor das hipóteses, faz com que cada vez mais pessoas sejam alvo de uma “caridade” sorridente dos vencedores dessa competição tacanha. Não é surpresa a qual direção tais pensamentos da alma da mercadoria devem se voltar em uma crise. Os sujeitos do dinheiro, atingidos pela crise monetária e de crédito, mas que ainda assim acreditam no sistema e se consideram fundamentalmente competitivos em sua “identidade” de lobos solitários, atacarão os “improdutivos”.
Superficialmente, eles podem ser os representantes do capital portador de juros, como o neogeselliano Klaus Schmitt declara ao estilo protestante clássico: “uma ordem econômica que explora esse esforço egoísta das pessoas e recompensa produtores eficientes em vez de enriquecer agiotas improdutivos, proprietários de terras e outros parasitas é […] uma ordem econômica natural.” (Schmitt, op. cit., p. 219). Aqui se aglutinam todos os critérios fetichistas e preconceitos do sistema produtor de mercadorias que aparentavam ter se tornado anacrônicos. O “novo empreendedor” voraz da nova classe média, um idiota consumista sedento por dinheiro e picareta do livre mercado, que se considera um “produtor eficiente” (mesmo que seja porque ele encontra tolos que o deixam empregá-los por baixos salários), vê-se na crise como uma vítima de seus colegas agiotas, proprietários de terras, etc., porque ele simplesmente vai à falência e não consegue mais pagar seus empréstimos.
Mas isso não é tudo. O ódio aos “parasitas”, do ponto de vista do sistema delirante da economia de mercado moderna, estende-se rapidamente às verdadeiras vítimas deste sistema. A suposta oposição anarquista em relação ao Estado, que, no entanto, não abandona o sistema produtor de mercadorias, necessariamente se volta, em última análise, contra o Estado de bem-estar social nessa configuração histórica. Mesmo no curso normal dos acontecimentos numa economia de mercado, todos aqueles que ainda conservam um resquício de razão sensata e tentam escapar ao máximo possível do desgaste sem sentido do “trabalho” abstrato são declarados loucos ou rotulados como “preguiçosos”. Em tempos de crise, esse ressentimento se intensifica e exprime-se na palavra de ordem: “não com o nosso dinheiro!” Quanto menos o capital portador de juros puder ser realmente tocado, maior o ódio desses populares ideólogos contra os “requerentes de asilo”, beneficiários da assistência social, desempregados, “associais”, deficientes, idosos, doentes, etc., que, na fúria insana do sujeito-mercadoria tergiversante, se parecem ainda mais com “parasitas” com “privilégios” de assistência social ilegais.
Assim como o sujeito do dinheiro pós-moderno em dificuldades quer eliminar os custos da infraestrutura estatal em uma crise e, em seu pânico, não percebe que, ao fazer isso, está destruindo as próprias condições de existência da produção de mercadorias, ele quer ainda mais eliminar os custos do “bem-estar” estatal. Aqueles que não conseguem suportar as exigências dessa maravilhosa concorrência, seja por fraqueza e desamparo, seja por um desgosto insuperável com o absurdo do trabalho abstrato e seus critérios insensatos para o sucesso, devem ser lançados na miséria e abandonados à caridade “privada”, como os leprosos da Idade Média. Em vez de defender a autonomia humana contra o terror sistêmico da economia de mercado, os neogesellianos, sem qualquer pudor, defendem a autonomia voraz do agente puro do mercado contra toda reivindicação humana e sensível alheia às abstrações da mercadoria. Reiteramos: uma crítica do Estado sem crítica do mercado, que, em última análise, é uma defesa do radicalismo neoliberal de mercado, mesmo em detrimento das escassas e burocráticas medidas paliativas e reparadoras do sistema social. Este anarquismo de “direita” equivale ao thatcherismo puro e é inteiramente compatível com os slogans “libertários de direita” de Jörg Haider.
8.
A síndrome ideológica que se manifesta nesse contexto é a economia política do antissemitismo. Esse rótulo poderia facilmente ser mal interpretado. Não se trata, de forma alguma, de rotular Silvio Gesell, por exemplo, de hitlerista e nazista, contrariando toda a verdade histórica, nem de rotular todo geselliano ou neogeselliano como um antissemita subjetivo. O problema está em outro nível. Com “economia política do antissemitismo” quero dizer que há uma conexão estrutural e histórica entre a crítica truncada ao capital portador de juros e o antissemitismo. Ideologicamente, tratam-se de dois lados da mesma moeda, com o antissemitismo aberto sendo a sua “cara”, por assim dizer. Portanto, nem todo economista crítico da especulação, que tem uma visão estreita sobre a esfera da circulação e da distribuição necessariamente é um antissemita declarado; por outro lado, todo antissemita sempre lança mão da crítica ideologicamente redutora do capital portador de juros como um modelo “econômico” de legitimação. O ódio ao capital portador de juros, que durante a crise monetária desponta de forma incompreensível e irrefletida entre as massas de derrotados, constitui não apenas o terreno fértil geral, mas a “base econômica” imediata do antissemitismo e dos pogroms antissemitas.
Essa conexão, que leva a reflexos involuntários de medo e agressividade entre os sujeitos da mercadoria, está, como bem se sabe, profundamente enraizada na história e remonta ao início da Idade Média. A ruptura conceitual vulgarizada entre o lado supostamente concreto e o lado estranhado e abstrato da produção de mercadorias, a afirmação do “trabalho” e da mercadoria de um lado, e a crítica e condenação do dinheiro e dos juros de outro, deram origem logo no início ao momento de uma cisão na consciência do sujeito mercadoria (ou seja, na altura em que os seres humanos eram sujeitos-mercadorias em estágios embrionários). A economia política do antissemitismo é um produto lógico e histórico dessa deformação. A conexão entre o “judeu” e o “dinheiro” surgiu por meio de uma perfídia particular do cristianismo medieval, que resolveu a contradição entre a condenação dos juros e a necessidade de crédito com base nas relações monetárias, impondo aos judeus a função de agentes da usura.
O fato de essa função ter sido atribuída aos judeus em especial pode ter tido inicialmente razões históricas e religiosas externas. Estruturalmente, porém, trata-se da lógica interna da função de um bode expiatório, que decorre da natureza cindida do sujeito-mercadoria. Essa esquizofrenia estrutural traz à tona a pressão de projetar os aspectos “negativos”, estranhos e abstratos da relação mercadoria-dinheiro sobre um objeto externo, um “ser estranho”. A própria autoalienação interna do sujeito-mercadoria é projetada para fora de si, portanto, como uma imagem hostil externa; assim, a divisão insana na alma da mercadoria já encontrava sua externalização desde sua forma embrionária. Esse mecanismo clássico de projeção se enraizou profundamente na sociedade ocidental e em sua consciência ao longo de mais de mil anos.
Enquanto as formas fetichistas pré-modernas ainda prevaleciam no Ocidente, o aspecto religioso permanecia na vanguarda da definição do judeu como o “Estranho” e o “Outro”; uma das primeiras grandes perseguições ocidentais aos judeus, a dos “marranos” na Espanha e em Portugal no século XV, ainda era dirigida, sob a bandeira inquisitória da condenação dos “assassinos de Jesus” e hereges que queriam manter sua própria religião apesar do batismo forçado. No entanto, quanto mais as relações mercadoria-dinheiro se expandiam e o modo de produção capitalista se consolidava, em última análise, como a nova forma fetichista da modernidade que emanava do Ocidente, mais “o judeu” como o “Outro” absoluto não era mais definido tanto no sentido religioso, e sim identificado como o “ser estrangeiro” do “sistema monetário e de juros”. Na verdade, apenas uma minoria de judeus tem atuado no setor financeiro desde que o cristianismo europeu contornou sua própria proibição de juros, transferindo o problema para agentes da usura judeus. Mas, em uma projeção coletiva, pouco importam as condições sociais reais e as propriedades reais do objeto da projeção. A natureza fantasmagórica de todo o processo permite que o mecanismo de projeção se acione mesmo quando o fato externo usado como pretexto ou motivo não existe de fato.
A este respeito, como tem sido frequentemente observado, até mesmo um “antissemitismo sem judeus” é possível (cf. Jürgen Elsässer, Antisemitismus – das alte Gesicht des neuen Deutschland, Berlim, 1992, p. 55ss). Tratando-se de uma contradição hostil no interior do próprio sujeito-mercadoria, que é projetada para fora, sua verdadeira natureza permanece intocada. “Judeu”, portanto, torna-se uma palavra fantástica e assassina do ódio de si mesmo da pessoa “que ganha dinheiro” e quer se “libertar” de sua própria esquizofrenia estrutural, mas sem tocar ou abolir o modo de produção capitalista e a si mesmo como sujeito-mercadoria. Ao usar o termo “judeu” para representar o lado abstrato do sistema de produção de mercadorias, que é percebido como negativo, e ao identificar essa projeção em termos econômicos vulgares com o capital portador de juros, não é preciso, em princípio, que haja qualquer judeu real para desencadear o reflexo antissemita. O fantasma dessa psicose coletiva é onipresente e “materializa-se” no pogrom contra as comunidades judaicas, que são suas vítimas e bodes expiatórios; mas, se necessário, grupos de esquerda, políticos liberais, autores de crítica social, artistas modernos, estrangeiros, outras minorias religiosas, etc., também podem ser definidos como “judeus” pela consciência psicótica pogromista.
A economia política do antissemitismo, isto é, a afinidade entre uma crítica truncada do capital portador de juros e os afetos antissemitas, não se trata de forma alguma uma mera conexão externa e acidental. Sua classificação funcional e fantasmática, profundamente arraigada na consciência histórica, sobrepõe-se aos polos opostos reais das categorias lógicas da mercadoria. O economista vulgar (por exemplo, o geselliano) cinde a conexão interna do modo de produção capitalista entre o lado “bom” do “trabalho” e da mercadoria e o lado “ruim” do dinheiro e do capital portador de juros. A produção totalizada de mercadorias não deve ser abolida, mas sim libertada de seu lado negativo. O antissemita declarado traduz essa construção “puramente econômica” em uma imagem fantasmagórica de inimigo: o lado bom, “concreto”, “particular” da modernidade deve ser libertado de seu lado ruim, abstrato, “estrangeiro”; e o estrangeiro, o outro, é “o judeu”.
Há, portanto, uma conexão estrutural e histórica necessária entre o antissemitismo e a crítica superficial e truncada do capital portador de juros. Portanto, em todos os conceitos econômicos correspondentes, há uma economia política do antissemitismo, independentemente de como essa conexão é expressa subjetivamente. Mas a conexão ideológica-subjetiva não pode, é claro, ser negada com base nisso. Mesmo nesse nível, os economistas vulgares críticos dos juros não são vítimas inocentes que foram meramente exploradas pelo antissemitismo. O já mencionado Gottfried Feder não recebeu apenas elogios entusiasmados de Hitler em seu “Mein Kampf”, como foi seu companheiro de luta e mentor econômico; ele também recebeu a “honra” da responsabilidade de escrever o programa econômico do Partido Nazista. Até mesmo Rudolf Steiner, que não era de forma alguma uma liderança ideológica do nacional-socialismo, teria tecido cáusticos comentários antissemitas em várias cartas.
Silvio Gesell, por outro lado, aparentemente não proclamava um antissemitismo aberto; porém, ele também afirma que “os judeus têm preferência pelo trabalho com as transações monetárias” (Silvio Gesell, citado em: Klaus Schmitt, op. cit., p. 197). Se, no entanto, ele se volta contra a “injustiça colossal” da “difamação dos judeus”, é meramente com base no argumento puramente econômico de que a identidade entre “usurário” e “judeu” é meramente acidental. Esse recuo ao nível da lógica econômica (truncada e reducionista) ignora tanto a caracterização histórica quanto o problema estrutural de uma projeção da contradição do sujeito-mercadoria sobre um “estranho” externo, precisamente porque o próprio Gesell afirma fundamentalmente o sujeito-mercadoria. Assim, ele é e continua sendo, em essência, um economista político do antissemitismo, mesmo que ele próprio admita subjetivamente que os judeus têm permissão para explorar os “privilégios de donos do dinheiro”, enquanto esse dinheiro não tiver sido desarmado pela fórmula mágica geselliana.
9.
Assim, entre os gesellianos havia muitas tendências nacionalistas e antissemitas, que necessariamente resultaram da lógica econômica e da falsa utopia do dinheiro. Soma-se a isso a ideologia abertamente darwinista social, de “higiene racial” e biológica do próprio Gesell, bem como de Steiner e outros. Gesell complementa a propaganda darwinista social da economia concorrencial com um programa de “criação humana” biológica por meio da luta concorrencial. No típico estilo de culto da virada do século, ele critica “casamentos com alcoólatras”, que, segundo ele, levam à “degeneração racial”, e recomenda que as mulheres só se envolvam com “parceiros saudáveis e fortes”; ele fala até de uma “degeneração racial milenar” (citado de: Günter Bartsch, Silvio Gesell, die Physiokraten und die Anarchisten, em: Klaus Schmitt, op. cit., p. 15). Não é de se admirar que nesse constructo biológico delirante as mulheres apareçam principalmente como uma espécie de “animais maternais” que supostamente escolhem “livremente” os melhores “touros reprodutores” machos.
Os neogesellianos de hoje ignoram vergonhosamente a ideologia delirante de “higiene racial” de seu mestre ou agem como se fosse meramente uma questão externa à sua teorização econômica, ou chegam até mesmo a tentar recuperar, hoje, aspectos positivos da sua ideologia biológica racista. Günter Bartsch e Klaus Schmitt, por exemplo, não se envergonham de tentar vender as reflexões de seu mestre sobre a genética humana como um “feminismo fisiocrático” muito especial de Silvio Gesell. Aspectos biológicos podem ser ocasionalmente encontrados no feminismo atual, mas eles, pelo menos, não se prendem ao conceito de “seleção” biológica como faz o neogeselliano Bartsch, que gostaria também de desenterrar esse motivo de terror:
Uma eugenia fisiocrática, baseada na livre escolha do amor e na livre competição, irá […] eliminar as causas da degeneração (!). […] Gesell quer abrir os caminhos da seleção natural (!). Não no nível animal, mas como incentivo a conquistas cada vez melhores e maiores (!), que elevem os capazes (!) e favoreçam a grandeza da sua reprodução (!) (Bartsch, op. cit., p. 16).
O fato de que um recurso tão inaceitável ao biologismo darwinista social tenha sido publicado pela consagrada editora anarquista Karin Kramer Verlag de Berlim, no início da década de 1990, mostra pelo menos que as correntes anarquistas também são fundamentalmente suscetíveis a tais absurdos mortíferos e que, após o colapso do socialismo de Estado e das ideologias marxistas obsoletas do movimento operário, o anarquismo, assim como outras abordagens sociais críticas do passado, não pode ser apresentado de forma precipitada e irresoluta como uma suposta alternativa. Pelo contrário, fica claro que todas as correntes intelectuais e políticas na história da consolidação capitalista, mesmo as que se opuseram radicalmente a ela, estão contaminadas com as ideias biologicistas de “higiene racial” de “seleção” e genética humana, que encontraram sua expressão mais brutal e completa no nazismo, que de forma alguma é sua única expressão.
Infelizmente, isso se aplica igualmente ao marxismo e aos partidos operários. O fato de que não há a mesma facilidade neles de se encontrar tais referências, como as que encontramos em Silvio Gesell ou nos antroposofistas, etc. (por exemplo, nos escritos de Karl Kautsky, na consciência de massa do antigo movimento operário ou no contexto ideológico do stalinismo) não leva os neogesellianos do tipo de Schmitt e Bartsch a ver uma oportunidade de fazer uma crítica abrangente e radical da ideologia, que não poupa nem mesmo seus “próprios” precursores teóricos; pelo contrário, o usam como justificativa não apenas para contemporizar tais ideias bárbaras na “teoria social” de Gesell, como também para recuperá-las descaradamente e propagá-las novamente no final do século XX.
Mais importante do que sua classificação na história das ideias, no entanto, é a questão de qual significado as ideias biologicistas sobre criação e “seleção” humanas ainda podem ter na economia política do antissemitismo da atualidade. A autoimaginação delirante do sujeito-mercadoria “que ganha dinheiro” reproduz essas ideologias meio esquecidas da primeira metade do século na nova situação de crise do final do século e tenta reformulá-las no nível mais alto de abstração que foi alcançado. Num mundo mais “individualizado” do que nunca na história da modernização, no qual vivem milhões de “indivíduos” e cada uma destas mônadas monetárias, mercantis, está exposta à concorrência total globalizada, não só emerge uma mistura explosiva do velho hiperegoísmo do anarquista individualista Max Stirner (1806-1856), a quem os gesellianos, entre outros grupos, também fazem referência, com todas as ideologias modernas de concorrência e exclusão; também é lógico que esse pensamento busca mais uma vez se armar de uma forma pseudobiologista.
O indivíduo abstrato, agora totalmente amadurecido e apartado de todas as relações não-mercantis, vê o mundo girando em torno do seu umbigo, torna-se um ser atomizado, egocêntrico e autossuficiente, enquanto “os outros” aparecem como um “ambiente” bastante perturbador e hostil. Não é de admirar que a pretensiosidade deste “eu” abstrato se tornem particularmente pronunciadas na crise de sua própria estrutura. Assim como gatos, que arrepiam seus pelos e sua cauda para parecerem maiores e mais intimidadores quando se sentem ameaçados, e assim como as pessoas com pretensão de autoridade estufam o peito e se envaidecem, assim também o solitário sujeito do mercado e do dinheiro, ameaçados por todos os lados, buscam uma inabalável legitimidade para sua vontade sombria de autoafirmação. E o que poderia ser mais incontestável do que a prova de “superioridade” embasada biológica, “natural” e geneticamente? A alucinação de um “super-homem” tem suas raízes nesse sentimento fundamental da modernidade produtora de mercadorias, assim como a propaganda de que estas ou aquelas ideias, conceitos, programas, etc., correspondem a uma ordem supostamente “natural”. Enquanto no passado imaginações desse tipo se limitavam à esfera filosófica, teórica e artística das ideias, hoje elas penetraram a consciência das massas. E enquanto a pretensiosidade do sujeito-mercadoria na concorrência costumava estar diretamente relacionada a construções coletivas de classe, nação ou “raça”, hoje o mesmo naturalismo social é filtrado através da única estrutura agora totalmente desenvolvida do indivíduo isolado, se agarrando a essa última e absurda esperança de autolegitimação. Todo pobre coitado no sistema produtor de mercadorias incha seu peito imaginando-se como um musculoso Rambo, como um “super-homem”, um professional maneiro e um animal voraz em comparação aos outros “sub-humanos degenerados”. A luta miserável para alcançar a manjedoura escassa do “emprego” e da renda monetária é estilizada como uma batalha dos deuses entre os nobres e os plebeus.
10.
Com base nisso, no entanto, a síndrome ideológica se polariza novamente de forma cindida. Uma vez que a cisão imaginada do “improdutivo” e biologicamente “impuro” espelha a própria cisão, ela é também experimentada como uma oposição polarizada: ora ele aparece como um “sub-humano”, ora como um “sobre-humano negativo” (de acordo com a teoria de Moishe Postone: Joachim Bruhn, “Unmensch und Übermensch, über Rassismus und Antisemitismus”, Kritik und Krise, Nº 4/5, Friburgo, 1991). Tanto os pouco competitivos usuários do Estado de bem-estar social quanto os altamente competitivos poderes do capital portador de juros são improdutivos em termos de economia de mercado. Ao traduzir a concorrência socioeconômica em termos pseudobiológicos, essa distinção se expressa novamente como aquela entre os sujeitos geneticamente “inferiores”, de um lado, e os sujeitos geneticamente estranhos “superiores”, do outro. Esse constructo corresponde, em última análise, à distinção entre o racismo e o antissemitismo: o racismo qualifica pessoas de cor, europeus orientais ou asiáticos, assim como árabes, europeus mediterrâneos (romanos, “galeses”) até grupos populacionais dentro do seu próprio país como “inferiores”; o antissemitismo, por outro lado, imagina “os judeus” como o fantasma do onipotente capital financeiro, como uma “conspiração mundial” de superinteligências alienígenas ocultas, etc. O sujeito-mercadoria, que se enxerga como “produtivo”, nativo, autoidêntico, “racialmente puro” e “geneticamente saudável”, coloca-se entre essas duas figuras fantasmagóricas do “outro” inferior e do “outro” superior, ambos os quais nada mais são do que projeções externas de sua própria contradição interna.
A cisão e polarização esquizofrênicas da falsa identidade e sua projeção em vários níveis sobrepostos constituem a estrutura ideológica que pode ser descrita como a economia política do antissemitismo. O nacional-socialismo foi a concretização paradigmática desse constructo. O fato de o antissemita do partido nazista Gottfried Feder ter tomado emprestado de Silvio Gesell o conceito de dinheiro em depreciação para cunhar sua “moeda Feder” não teve qualquer papel prático, segundo os neogesellianos (cf. Gerhard Senft, Weder Kapitalismus noch Kommunismus, Berlim, 1990, p. 196). A “moeda Feder” nunca viu a luz do dia em nenhuma escala social relevante, assim como a utopia monetária original de Gesell. Na verdade, a política monetária nazista seguiu o caminho oposto, utilizando as chamadas notas Mefo para lançar um gigantesco programa de crédito protokeynesiano, que provavelmente teria levado ao colapso monetário e à hiperinflação, mesmo no caso de uma vitória militar do regime nazista. Em sua essência, a economia nazista (semelhante ao planejamento estatal contemporâneo da União Soviética e ao “New Deal” de Roosevelt nos EUA) tinha um caráter bastante estatista, enquanto a utopia monetária pseudogeselliana de Feder poderia, na melhor das hipóteses, servir como um reforço ideológico antissemita. O espírito geral da época era a ilusão do “primado da política”, ao qual o regime nazista também aderiu (cf. Christina Kruse, Die Volkswirtschaftslehre im Nationalsozialismus, Friburgo, 1988).
Mas a utopia econômica vulgar do dinheiro não pode ser mais do que um pretexto e um disfarce para a loucura projetiva da lógica da mercadoria. Nesse sentido, o nacional-socialismo fez tudo o que pôde a partir de ambos os lados do mecanismo de projeção. Tanto os grupos categorizados como “inferiores” em termos racistas e darwinistas sociais (eslavos, roma e sinti, homossexuais, pessoas com deficiência, doentes mentais, etc.) quanto os judeus, definidos como negativamente “superiores” em termos antissemitas, foram levados para os campos de extermínio: “o sujeito do valor em sua plenitude tem que competir com os inferiores e os superiores” (Joachim Bruhn, op. cit., p. 19). O filisteu de farda preta, que se imaginava como um trabalhador e um sujeito-mercadoria geneticamente “saudável”, queria eliminar os dois aspectos do “estrangeiro” em seu próprio ser, enviando esses “outros” para a câmara de gás.
O caráter singular do nacional-socialismo reside justamente no fato de que, em uma situação histórica específica, ele concretizou de uma só vez todas as consequências dessa economia política do antissemitismo. Assim como os neogesellianos cunharam a fantasia lendária de Wörgl, eles também perpetuam a lenda negativa de que o regime nazista apenas “roubou” sua fórmula mágica da utopia do dinheiro, sem nunca ter a intenção de realizá-la. Mas a utopia filisteia do dinheiro “honesto” nunca poderá se realizar de forma alguma e, nas atuais condições de cientificização, suas chances são menores do que nunca. O que pode ser percebido, no entanto, é que a lógica da projeção por trás da utopia filisteia do dinheiro leva à destruição, como demonstrado pelos nazistas. O sujeito do trabalho e da mercadoria não pode escapar de si mesmo, mas, em sua loucura, é estrutural e fundamentalmente capaz de cometer o Holocausto.
11.
Nem o nacional-socialismo nem o Holocausto se repetirão da mesma forma. Mas a estrutura fundamental da contradição interna do sujeito-mercadoria ainda existe, e é, hoje, ainda mais evidente em sua forma mais desenvolvida. Na nova grande crise do sistema produtor de mercadorias, que, comparada à crise econômica mundial de 1929-33, se apresenta novamente como uma crise financeira e de crédito, porém em escala muito maior, o antigo mecanismo de projeção é, portanto, inevitavelmente acionado, embora certamente de forma transformada.
O neogesellianismo poderia servir particularmente bem a esse propósito, pelo menos no núcleo de uma nova formação ideológica correspondente. Essa adequação do constructo geselliano a fim de reorientar a velha ideologia mortal e excludente do final do século XX é evidente em vários aspectos. Esse constructo contém todos os elementos essenciais da economia política do antissemitismo, mas com uma nova fórmula e em uma constelação distinta da ideologia nazista. Mas é justamente por isso que o neogesellianismo pode ser o promotor, em potencial, de um novo surto esquizofrênico no sujeito-mercadoria, que não pode mais se apegar à sua estúpida normalidade.
Justamente porque Silvio Gesell e sua corrente de economistas liberais não foram integrados organizacionalmente pelo nacional-socialismo no passado, seus descendentes ideológicos podem hoje retomar ideias análogas aparentemente sem impedimentos. E justamente porque limitam essa ideologia à sua manifestação puramente econômica, ou seja, à crítica econômica vulgar do capital portador de juros, eles podem abrir as portas para a economia política do antissemitismo de uma forma historicamente renovada. O antissemitismo explícito não demorará a chegar e, em última análise, será irrelevante se o pogrom antissemita na crise financeira for perpetrado pelos próprios neogesellianos ou por gangues que invocam a sua respectiva ideologia econômica sem, por pudor, negar suas consequências antissemitas.
O gesellianismo também poderia operar uma espécie de função modernizadora no renascimento do darwinismo social e suas tendências sociobiológicas. A especialidade de Silvio Gesell a esse respeito é que ele não define o supostamente inferior de uma forma racista no sentido comum, mas de uma certa forma ocidental-universalista, sendo assim inteiramente apropriado à forma de mercadoria totalmente desenvolvida e globalizada. A insanidade biologicista também pode aparecer sob o disfarce de uma propaganda de igualdade. Não se trata mais do racismo particular contra certos conceitos de “povo” e grupos humanos, e sim da ideia igualmente paranoica de uma “reprodução seletiva” dos “competentes” como tal, de maneira transversal aos chamados povos e as supostas “raças”; os “inferiores”, por outro lado, independentemente da sua cor de pele, sua filiação “étnica”, etc., devem ser desqualificados e, se possível, eliminados. Essa perversa “higiene racial” geselliana é mais consistente e universalista do que a dos nazistas, e se adequa a um darwinismo social modernizado no nível das relações universais de mercado mundial, que cultiva mais uma obsessão funcionalista geral pelo desempenho do que preconceitos étnico-raciais específicos. A ideologia mortal da “sobrevivência do mais apto” se manifesta aqui em sua forma universalista pura, purificada de todas as impurezas do velho particularismo racista.
Se o neogesellianismo pôde modernizar a mecânica da projeção no contexto de uma economia política do antissemitismo em ambas as direções, o mesmo se aplica à determinação do sujeito possivelmente encarregado de executar a sua construção delirante. Enquanto a ideologia nazista ainda estava se ocupava dos metassujeitos coletivos do Estado e da nação, e, portanto, só podia formular a condenação do capital portador de juros sob o signo do estatismo e com a exigência contemporânea de uma “primazia da política”, o antiestatismo individualista de Silvio Gesell, que na época era mais um freio e um obstáculo, hoje, em uma época de neoliberalismo radical de mercado em todo o mundo, é muito mais adequado para representar o sujeito-mercadoria pós-moderno em sua loucura concorrencial.
12.
Para poder analisar a economia política do antissemitismo a partir de uma perspectiva da teoria social, é indispensável recorrer à teoria de Marx, que está longe de estar esgotada. No entanto, seria equivocado fingir que é possível prosseguir sem ressalvas partindo de um fundo de verdades marxistas há muito estabelecidas. O marxismo não está superado em meio ao tipo de crise secular atual, assim como outras antigas abordagens críticas da sociedade que não podem ser remobilizadas sem serem abolidas. Não há uma linha consistente de pensamento e ação emancipatória na modernidade que precise apenas ser ampliada, assim como não há uma distinção historicamente consistente e clara entre o “bem” e o “mal” ou o “certo” e o “errado”. É justamente nessa continuidade fictícia que o radicalismo de esquerda marxista vulgar se encontra em casa, chafurdando em uma construção identitária moralizante, onde finge ainda ser capaz de viver, sem nenhum esforço maior de sua parte, da substância inesgotável de uma teoria na qual tudo o que é essencial já foi dito, de modo que uma verdade adequada pode ser tirada do seu bolso a qualquer momento.
Nem a própria teoria de Marx nem o marxismo histórico estão acima da história interna do capitalismo e devem ser percebidos de forma reflexiva como sendo parte dela. Só então será possível examinar o que, do ponto de vista do estado atual de desenvolvimento, deve ser historicizado no marxismo e na teoria de Marx e o que, por outro lado, ainda pode ser válido (ou só agora tornar-se válido) para o nosso tempo. É realmente surpreendente o quão pouco a história interna da modernidade foi examinada criticamente até agora. As construções identitárias das principais correntes ideológicas estavam e ainda estão claramente orientadas a deixar passar batido ou fazer a apologia do seu próprio campo e de sua própria galeria de antepassados. Este fato por si só indica que há pontos em comuns e transversais entre posições aparentemente hostis e opostas.
O darwinismo social, as tendências biológicas e, em geral, a naturalização do social fazem parte da história da imposição do sistema moderno de produção de mercadorias; são produtos do pensamento positivista, tal como correspondem à forma totalizada da mercadoria. Tais ideias surgiram em todas as fases do desenvolvimento moderno e, em particular, durante períodos de crise estrutural. Se as mesmas ideias podem ser encontradas em abundância no movimento operário e entre os principais ideólogos marxistas, então essa triste realidade revela uma parcialidade também do marxismo no pensamento burguês moderno em geral. Essa parcialidade só pode ser explicada pelo fato de que o marxismo e o movimento operário também eram componentes imanentes do processo de modernização e, em certo sentido, sua segunda fase em todos os níveis. Já bem no século XX, aparentemente ainda não era possível alcançar a abolição da forma fetichista da sociedade moderna, mas apenas seu desenvolvimento interno e reforma interna (reconhecimento do “trabalho” como função sistêmica do capital) e uma correspondente “modernização recuperadora” nas regiões periféricas do mundo.
Nesse sentido, seria errado atribuir os elementos social-darwinistas e naturalizantes do marxismo histórico meramente aos desvios subjetivos de ideólogos individuais. Da mesma forma, não é possível simplesmente nivelar as diferenças entre o marxismo, a utopia do dinheiro de Gesell e o nacional-socialismo. Assim como a ideologia de Silvio Gesell pertence à economia política do antissemitismo, mas não é de forma alguma idêntica à ideologia nazista, também há evidentemente pontos de contato e sobreposição entre o marxismo histórico e a ideologia geselliana e nazista, sem que, no entanto, o marxismo e o movimento operário possam ser atribuídos à economia política específica do antissemitismo. Trata-se, na verdade, de características ideológicas transversais de época no processo histórico de ascensão do sistema produtor de mercadorias, e é preciso questionar como esses momentos podem retornar hoje, transformados, na crise secular desse sistema.
Só é possível esclarecer essa questão se as afinidades e os pontos de contato entre as ideologias opostas no processo de modernização não forem constatados apenas no nível superficial da aparência, mas forem rastreados até o nível fundamental das categorias lógicas da mercadoria. A este respeito, pode-se dizer, em primeiro lugar, que todas as ideologias modernas são, fundamentalmente, ideologias do trabalho. Isso vale tanto para as ideologias afirmativas e pró-capitalistas quanto para as ideologias críticas da sociedade e aparentemente anticapitalistas. É precisamente essa semelhança que constitui o núcleo do viés compartilhado na totalidade da forma-mercadoria moderna. O processo de economia de mercado é, no fundo, uma utopia real do “trabalho”, uma espécie de metafísica da realidade. E todas as abordagens socialmente críticas dos últimos 200 anos, incluindo o marxismo, eram elas mesmas utopias do trabalho; todas elas presas a uma variante da metafísica do trabalho e, portanto, situadas no mesmo terreno histórico, sem perceber que o “trabalho” como abstração real pertence ao próprio sistema capitalista.
Marx também ontologiza o “trabalho”, mas não de forma inabalável. Em sua teoria, o problema é matizado por inúmeros pontos obscuros que vão além da metafísica do trabalho. No entanto, não há dúvida de que a teoria de Marx continua compatível com o mundo burguês neste ponto. Apesar das passagens contraditórias que estão abertas e passíveis de interpretação, Marx nunca demonstra clara e abertamente que o “trabalho” não é nada menos que uma constante antropológica supra-histórica, e sim uma categoria funcional historicamente limitada do sistema produtor de mercadorias. O marxismo do movimento operário dos epígonos afirmava o “trabalho” de forma totalmente inabalável e até mesmo militante. Embora Marx tenha pelo menos reconhecido a forma-mercadoria como tal como algo que precisava ser abolido, ainda que com base na categoria lógica da mercadoria de “trabalho”, o marxismo epigonal permaneceu preso à sua forma fetichista reificada também nesse nível. Nesse sentido, apesar de todas as críticas de Marx aos ricardianos de esquerda e a Proudhon, há um elemento fundamental de concordância com todas as utopias do trabalho e da mercadoria na história da modernização (incluindo a de Gesell) e, portanto, uma consequente inconsistência final na crítica “marxista” a tais ideias.
Essa inconsistência se manifesta, por um lado, na acusação contra os críticos unilaterais do capital portador de juros, de que eles se limitariam ao nível de circulação e distribuição, deixando intocado justamente o modo de produção do capital. Mesmo que essa acusação esteja absolutamente correta, é preciso questionar se o marxismo consegue satisfazer seus próprios padrões. Ele fala incessantemente da “produção”, mas não num sentido crítico, e sim de maneira inteiramente afirmativa, produtivista e fetichista do trabalho, à maneira do próprio sistema produtor de mercadorias. Ao entender o “mais-valor” meramente como “trabalho não remunerado” que (de acordo com a conclusão implícita ou explícita) deveria ser remunerado por direito, o marxismo, assim como Proudhon e os gesellianos, permanece preso à ideia de mera justiça distributiva e deixa completamente intocadas as formas fetichistas básicas do moderno sistema produtor de mercadorias, que são, na verdade, a “condição de possibilidade” para que a reprodução tome a forma de renda monetária. Apesar das negações ocasionais do próprio Marx, sua teoria ofereceu ao marxismo dominante pontos de referência suficientes para interpretá-la de uma forma oportunista de massa, no sentido da ideologia arraigada do movimento operário do “produto integral do trabalho”; só que formulada de maneira diferente daquela, por exemplo, de Lassalle ou Silvio Gesell.
13.
A mais recente crítica marxista aos gesellianos, representados pela “Esquerda Ecológica”, permaneceu essencialmente nesse nível. Essa crítica é “bem-intencionada”, mas mais fervorosa e zelosa do que realmente aprofundada; o que já fica evidente pelo fato de que a apresentação das numerosas conexões pessoais e organizacionais entre os antigos e novos economistas do livre-mercado geselliano e as correntes nacionalistas, neodireitistas radicais, racistas e antissemitas ocupa mais espaço do que a crítica econômica propriamente dita, que é bastante superficial (cf. Peter Bierl, “Der rechte Rand der Anarchie. Silvio Gesell und das Knochengeld”, In Ökolinx Nº 13/1994). Embora apresentar esse aspecto político superficial não seja algo sem mérito, uma crítica que se concentre nisso corre sempre o risco de cair na paranoia de uma espécie de teoria da conspiração “reversa”.
O que é então contrastado com o gesellianismo não é, infelizmente, nada mais do que a interpretação limitada do conceito de exploração de Marx, limitado à esfera da distribuição e pelas ideias do antigo movimento operário:
Os trabalhadores produzem mercadorias cujo valor é superior aos salários que recebem. Os salários correspondem aproximadamente ao valor dos bens e serviços necessários para manter a força de trabalho humana. A diferença entre os salários e o valor das mercadorias produzidos é o famoso mais-valor retido pelo capital. Em resumo e de forma simplificada. Para Gesell, mais-valor significa juros e rendimentos […] (Bierl, op. cit., p. 7).
“Muito simplificada”, de fato. O autor não percebe que, com essa comparação, ele não está de forma alguma criticando o modo de produção capitalista em si, mas apenas o modo de distribuição capitalista. O conceito do vilão social que “retém o mais-valor”, em contraste com Gesell, é meramente estendido do rentista para o empresário industrial, enquanto a categoria fetichista do “valor” em si, que constitui toda a relação, permanece fora de qualquer consideração crítica e aparece apenas como o fruto de discórdia pressuposto acriticamente pelos sujeitos sociais envolvidos, que lutam pelo seu pedaço dele.
Se não é apenas o tomador de juros, mas também o capitalista empresarial o acusado de se beneficiar da “exploração” social e da “apropriação de mais-valor”, então, na verdade, não se abandonou de forma alguma o nível da circulação ou da distribuição, mas apenas se ampliou em um nível o mesmo argumento limitado. Pois a venda da mercadoria força de trabalho não ocorre em nenhum outro lugar senão na esfera da circulação, e a diferença no nível de renda monetária é sempre apenas um fenômeno da distribuição. Uma crítica verdadeiramente radical do modo de produção capitalista (e não apenas do modo de circulação e distribuição capitalista), deveria, por sua vez, visar a forma do valor como tal, a racionalidade econômica e, portanto, a forma abstrata do “trabalho”, algo do qual o marxismo está muito distante. Assim, ele estende a demonização do capitalista financeiro tomador de juros, presente na economia política do antissemitismo, à figura do capitalista produtivo, sem abandonar o paradigma de uma subjetivação e sociologização simplista da relação fetichista. Além disso, devido a essa redução análoga, o próprio marxismo tornou-se repetidas vezes vulnerável a motivos antissemitas, como atesta abundantemente a sua história (ver o artigo de Robert Bösch nesta edição).
Por outro lado, o marxismo, assim como os gesellianos, permanece preso às categorias lógicas da mercadoria em seus objetivos, embora novamente em um nível diferente. O ponto de partida comum do fetichismo do trabalho apenas leva o marxismo a uma outra maneira de tentar contrapor um lado “bom” a um lado “mau” com base no sistema de produção de mercadorias não abolido. A utopia direta do trabalho, das mercadorias ou do dinheiro, como a dos ricardianos de esquerda, de Proudhon e de Silvio Gesell, é substituída por uma utopia indireta, isto é, uma utopia estatal. O mito do “Estado operário” ou (como era chamado na velha social-democracia) do “Estado futuro” visa, tal como seus concorrentes ideológicos históricos, lavar a pele sem molhá-la, ou seja, perpetuar as categorias reais da produção de mercadorias sem realizar sua “condição de possibilidade”. Os truques monetários gesellianos são substituídos por meros truques estatais, o que (como foi demonstrado) acaba por revelar-se apenas como uma outra forma de truque monetário que está fadado ao fracasso.
Assim, tal como na sua definição do objeto de crítica, o marxismo também apenas dá um “salto de nível” em relação aos gesellianos em seu objetivo, sem sair da mesma lógica. Enquanto a utopia do dinheiro de Gesell permanece dentro da economia da mercadoria no sentido mais estrito e quer se livrar completamente do Estado, o marxismo, por outro lado, salta para o polo estatal do sistema produtor de mercadorias e, a partir daí, pretende controlar as categorias reais não abolidas da produção de mercadorias. A ficção jurídica da “propriedade privada” deve ser abolida de forma superficial dentro de sua própria esfera funcional (estatista), sem abolir o contexto formal real da propriedade abstrata e, portanto, da autoalienação humana. Mais uma vez: o sujeito burguês quer abolir a sociedade burguesa sem abolir a si mesmo como sujeito burguês; só que, no caso do marxismo, o sujeito político utópico tem precedência sobre o sujeito-dinheiro utópico. O denominador comum é o sujeito fetichista do trabalho e da mercadoria, que em todas as suas manifestações tende a ideologias excludentes, a estruturas repressivas e, em tempos de crise, a reações bárbaras.
14.
Portanto, fica claro que uma crítica consistente do neogesellianismo e, de modo geral, de todas as formas de economia política do antissemitismo não é possível a partir de um ponto de vista marxista não superado. Em vez disso, toda a história da modernização deve ser reexaminada e submetida a uma crítica mais aprofundada do que a feita até hoje. Se não pelo prognóstico de uma nova crise econômica global, para a qual os remanescentes do radicalismo de esquerda não estão preparados de forma alguma, para que uma nova onda esquizofrênica, dessa vez talvez mediada por Gesell, não inunde a consciência social e possivelmente até mesmo varra grandes setores da antiga oposição de esquerda e alternativa. A simultaneidade do colapso ideológico do marxismo e de uma crise qualitativamente nova do modo de produção capitalista é o que torna a situação social na segunda metade da década de 1990 tão perigosa. A economia política do antissemitismo ameaça preencher o vácuo deixado pela crítica social marxista, tal como o fundamentalismo islâmico o faz em outras regiões do mundo; e isso se torna ainda mais grave quanto mais se intensifica a crise do nexo entre “trabalho”, forma-mercadoria e dinheiro.
Portanto, para a abolição do sistema produtor de mercadorias, é necessário abolir, também, as moribundas e obsoletas ideologias de época do passado, incluindo o marxismo. Somente assim o conteúdo da teoria de Marx, que continua válido, pode se tornar frutífero para uma renovação do pensamento social crítico e emancipatório. Em termos gerais, poderia-se dizer: é necessário enriquecer o marxismo estatista (utópico-estatal) com a crítica radical anarquista do Estado e, inversamente, enriquecer o anarquismo individualista da mercadoria (utópico do dinheiro) com a crítica radical de Marx à forma fetichista da mercadoria. Naturalmente, isso não pode ser feito de forma meramente eclética, com uma combinação superficial de dois sistemas ideologicamente antagônicos no passado; antagonismo que, de outra maneira, permaneceria inalterado. Uma verdadeira superação só é possível se, ao mesmo tempo, for superada também a metafísica moderna do trabalho, que fundamenta igualmente ambas as formas antigas de crítica social. Em vez da abstração real do “trabalho”, inconscientemente pressuposta sempre na forma da mercadoria, outro tipo de reprodução deve ser desenvolvida, para além do mercado e do Estado, para libertar o “processo metabólico entre o ser humano e a natureza” (Marx) do terror da abstração da forma fetichista moderna e, no contexto das “atividades autônomas”, eliminar a separação funcionalista das esferas da vida.
Há toda uma série de problemas que precisam ser resolvidos tanto na teoria quanto na prática, diante do novo processo de crise histórica. Isso inclui, por exemplo, a compreensão de que não é possível substituir a forma fetichista anterior por um novo “princípio” abstrato e geral, o que significaria apenas a prolongação do pensamento e da ação segundo a lógica da mercadoria. Em vez disso, uma transformação social para além do complexo de mercado-Estado, cada vez mais insustentável, na forma total da mercadoria, só é concebível como uma diversidade de abordagens em níveis muito diferentes: no âmbito imediato, por exemplo, novas formas de produção cooperativa não-mediadas pelo mercado e serviços autogeridos; no alcance indireto dos setores industriais centrais, o desenvolvimento de um novo debate sobre o planejamento não-estatista (por exemplo, com a ajuda de modelos cibernéticos e ecológicos) além do Estado-nação e da economia nacional. Seria essencial não abandonar simplesmente o nível de socialização e as forças produtivas da modernidade, e sim selecionar seus potenciais e manifestações de acordo com critérios sensíveis e estéticos não-mercantis. Tudo isso, é claro, vai além de uma discussão sobre a frágil utopia do dinheiro de Gesell.
O fator decisivo aqui é se é concebível e viável extrair recursos reais da forma da mercadoria, “redirecioná-los”, ocupá-los, etc. Isto é perfeitamente possível a nível de “economia local”, sem excluir considerações mais abrangentes. O conflito fundamental em torno de uma nova orientação não se dá entre abordagens “pequenas” e “grandes” ou entre abordagens locais e sociais, e sim em torno da questão de se a subjetividade burguesa, baseada na mercadoria, na troca e no dinheiro será superada em áreas específicas (e, a longo prazo, na sociedade como um todo). Os círculos locais de troca alternativos e substitutos de dinheiro (como “talentos”, etc.) não precisam ser demonizados em todos os casos, se forem adequados, de uma forma ou de outra, para a ajuda mútua local e comunitária; contudo, elas não oferecem nenhuma orientação no sentido da dissociação real das relações mercadoria-dinheiro e no sentido de uma transformação do sujeito-mercadoria burguês. Pelo contrário, dessa forma, especialmente no âmbito restrito das alternativas práticas, a essência burguesa dos indivíduos isolados corre o risco de se consolidar ainda mais, mesmo onde ela já se tornou praticamente obsoleta. E não é preciso de muita imaginação para perceber que tais tentativas são fundamentalmente suscetíveis ao gesellianismo e à economia política do antissemitismo.
15.
Um recurso fundamental que poderia ser dissociado da forma-mercadoria em um grande movimento social é provavelmente a terra. Essa questão, que se torna cada vez mais urgente em todo o mundo, pode muito bem ser adequada, sob certas condições, à mobilização social sem qualquer conotação utópica ou oportunista de massas. O fato de Silvio Gesell também propagar a ideia de uma “terra livre” e de a “questão da terra” aparecer repetidamente no sistema irracional da economia política do antissemitismo não deve obscurecer a relevância real dessa questão elementar dos recursos.
De toda forma, o conceito de “solo” desempenhou um papel menos socioeconômico e mais ideológico nas correntes antissemitas críticas da especulação financeira, servindo para legitimar ideias étnicas e racistas delirantes (como na metáfora “sangue e solo” dos nazistas). Silvio Gesell também vincula claramente a ideia de “terra livre” às suas ideias social-darwinistas e biologicistas de “reprodução seletiva”, segundo as quais um solo “saudável” é análogo à “saúde hereditária” de forma semelhante aos nazistas. Pior ainda: o que neogesellianos como Klaus Schmitt tentam vender como “feminismo fisiocrático” acaba se revelando, também, como um componente da “higiene racial” darwinista social, mesmo no que diz respeito à questão da terra. Pois, de acordo com Gesell, após a abolição da propriedade privada da terra, o arrendamento (a ser pago pelo “maior lance”) deveria ser transformado em uma “pensão-mãe”; isto é, uma espécie de “prêmio de natalidade” para as “fêmeas” em nome da ilusão da “reprodução seletiva” e da “reprodução dos mais competitivos”.
A ideia de desvincular a terra como um recurso da forma-mercadoria não necessita de uma justificativa tão absurda e socialmente perigosa. A demanda por um uso da terra que seja livre, não-privilegiado e governado de forma autônoma e comunitária, nada mais é do que uma especialidade da economia política do antissemitismo, que, na verdade, apenas se apropriou dessa ideia para seus próprios fins. Na realidade, trata-se de uma reivindicação recorrente por quase todos os movimentos sociais (inclusive o movimento operário) desde a Idade Média até os dias atuais. Somente nos poucos países industrializados centrais, onde o fordismo se generalizou, esse momento desapareceu (também como imaginário social) após a Segunda Guerra Mundial, porque os altos salários e o Estado de bem-estar social mediado pelo mercado mundial pareceram tornar essa questão irrelevante. Contudo, na periferia do capitalismo e nas regiões pós-coloniais do chamado Terceiro Mundo, a questão da terra nunca saiu da ordem do dia (nem nunca foi resolvida); e hoje também poderia reemergir nos países ocidentais centrais como parte de um novo movimento de transformação e (é claro, apenas em conjunto com outras demandas sociais) ganhar um novo impulso.
Na teoria de Marx, a crítica à renda capitalista da terra e a ideia de desvincular a terra da forma-mercadoria são formuladas de forma bastante precisa em termos econômicos; outros economistas e críticos sociais (que não fazem uso da economia política do antissemitismo) também poderiam ser consultados. Esse ponto é, na verdade, um dos poucos em que se pode dizer que o extinto socialismo estatal poderia realmente ser considerado uma alternativa socioeconômica ao sistema produtor de mercadorias ocidental. Na maioria dos países socialistas de Estado, a terra era excluída total ou parcialmente do sistema de circulação de mercadorias, o que significa que não podia ser comprada nem vendida (semelhante ao que se pretendia, pelo menos, na Revolução Mexicana). Em vista dos aluguéis inacessíveis e da falta de moradia em massa resultante da pressão pela privatização, faria muito mais sentido no Leste retomar essa ideia no contexto, por exemplo, de um programa de autogestão comunitária (em vez de um decreto burocrático estatal) e propagar essa ideia também no Ocidente, em vez de adotar a ideia geselliana de terra livre contaminada pelo darwinismo social.
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É improvável que a utopia do dinheiro de Gesell possa algum dia ganhar relevância econômica prática ou que a economia política do antissemitismo volte a ser uma importante doutrina de Estado em qualquer país. O que é provável, porém, é que a síndrome ideológica geral, na forma geselliana individualizada, acompanhe o processo de crise do sistema mundial produtor de mercadorias e se torne um dos vários padrões de legitimação na desintegração da civilização moderna. Na linha do processo cego do sistema, já surgiram gradualmente algumas forças que sustentam esse novo tipo de barbárie: primeiro a máfia em suas várias versões do sul, leste e oeste; depois as gangues de rua e incendiárias de jovens racistas (da Alemanha a Ruanda); não menos importante, os próprios aparelhos administrativos e de poder das democracias em desintegração.
Como um quarto poder da barbárie secundária, um florescente sistema sectário selvagem está emergindo cada vez mais, não apenas em trajes religiosos e escatológicos (como, por exemplo, os “cientologistas” ou a seita química japonesa Aum Shinri Kyo), mas também em grupos bizarros de melhoria do mundo e associações de fórmulas mágicas socioeconômicas, como é o caso dos economistas do livre mercado. A característica comum desse tipo de seita é que o mundo deve supostamente ser colocado de volta nos eixos por meio de alguma alavanca geral (construída irracionalmente), ao invés de se tratar do problema histórico-genético do processo de socialização da forma-mercadoria na modernidade e desenvolver questões relacionadas à transformação social. Abandonados pelos antigos detentores da crítica social reflexiva, que lidaram com a ruptura histórica de forma puramente afirmativa e, em sua maioria, se transformaram em “realistas” da economia de mercado da pior espécie, os enlouquecidos amadores e inventores do senso comum econômico limitado, estão cultivando em seus jardins intelectuais uma nova economia política de antissemitismo.
É difícil ignorar que essa ideologia, especialmente em sua forma “meramente” econômica vulgar, que ainda não emergiu completamente, está encontrando cada vez mais adeptos hoje em dia; não como um grande movimento social, mas como uma crescente colcha de retalhos de grupos e associações gesellianas que produzem seus próprios camelôs, publicistas e pregadores ideológicos. Com sua fórmula mágica pequeno-burguesa e utópica do dinheiro, eles se juntam ao florescente mercado de seitas apocalípticas, todas elas com algum princípio bizarro de salvação para vender. Podemos observar, quase em passo acelerado, como a consciência fixada na forma-mercadoria se decompõe na crise e dá origem à paranoia. A economia política do antissemitismo é eminentemente adequada para atuar como um fermento ideológico, agitando toda a confusão mental da consciência que processa a crise de forma delirante, de onde pode, então, emergir o monstro do pogrom; em especial porque a ideologia geselliana é amplamente ramificada e agora se estende desde as seitas e repúblicas e revistas subculturais até as igrejas e sindicatos, a gestão, a classe política (especialmente o Partido Verde) e o mundo acadêmico. Embora possa parecer, até agora, apenas uma praga bizarra na mentalidade geral, à medida que a crise financeira se agrava, pode em breve ficar claro que a economia política do antissemitismo, agora reavivada, está longe de ser inofensiva: ou seja, quando, em seu frenesi concorrencial por autoafirmação, se estenderem as garras do darwinismo social e do capitalismo de Manchester e, ao mesmo tempo, irromper a loucura da conspiração global.
Em outro estágio de desenvolvimento, fenômenos semelhantes foram observados há quase um século. As rupturas estruturais da transição para a industrialização fordista e o capitalismo total do século XX abalaram profundamente as sociedades ocidentais, especialmente a alemã, desde a década de 1880 até a ascensão dos nazistas ao poder. Mesmo antes da primeira grande catástrofe de guerra, surgiram os mais estranhos tipos de sociedades de salvação: nudistas, vegetarianos radicais, seitas antissemitas, reformistas da vida, movimentos de reavivamento religioso, associações de fórmulas mágicas econômicas, sociedades pseudocientíficas com ideias vitalistas e biologistas, “santos da crise”, esotéricos e ocultistas, clubes budistas, etc. Naquela época, também surgiu o delírio da “conspiração mundial”, que assombrava a mente das pessoas das mais variadas formas (facilmente decifrável como uma subjetivação fantasiosa e demonização do processo estrutural cego das relações do mercado mundial industrializado, percebido como ameaçador). E não foi por acaso que Silvio Gesell também publicou seus escritos nesse ambiente intelectual e, até sua morte em 1930, seguiu a carreira de “santo da crise” da utopia burguesa do dinheiro.
O antissemitismo aberto cresceu e floresceu no solo desse mundo colorido e deslumbrante de seitas, e não apenas entre os nazistas, que originalmente eram uma seita política aparentemente absurda. Hoje em dia, não se reconhece tanto que tudo o que hoje associamos quase exclusivamente ao nacional-socialismo também estava presente ideologicamente entre muitos de seus oponentes na época. Até mesmo emigrantes de diferentes origens, que entraram em conflito com o movimento hitlerista por outros motivos, levaram consigo seu antissemitismo e darwinismo social e encontraram correntes semelhantes em seus países de exílio. Só mais tarde é que foram retocar as fotos e autorretratos, já que ninguém queria ser associado aos horrores de Auschwitz.
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Em um nível muito mais elevado de desenvolvimento, uma situação semelhante parece estar se formando no final do século XX. Após a época das grandes catástrofes da primeira metade do século XX, cujos precursores espirituais foram as ideias paranoicas de salvação, as bizarras experiências da reforma da vida e as seitas da crise, o curto verão siberiano do “milagre econômico” fordista parece ter apagado todo o espectro e até mesmo a memória de sua gênese ideal em algumas décadas do pós-guerra. Mas a estrutura ideológica da economia política do antissemitismo se esconde na própria forma-mercadoria social e, portanto, no “inconsciente coletivo”, do qual pode emergir novamente de forma transformada.
O curto período histórico de prosperidade criou, de uma forma quase vergonhosamente mecânica, uma tremenda ilusão, que atingiu profundamente até mesmo na crítica social marxista, de que o sistema produtor de mercadorias já havia essencialmente superado o pior e que tudo o que restava era eliminar gradualmente os vestígios da época das catástrofes por meio de um trabalho de limpeza e desenvolvimento. Absurdamente, essa ideia democrática conservadora persiste até hoje (reforçada ainda mais pelo colapso do socialismo de Estado), embora a prosperidade da economia de mercado já tenha há muito tempo desaparecido. Ignorando completamente os surtos reais da crise, o esquadrão reformista habermasiano está agora ainda mais inclinado a lançar o slogan absurdo de “civilizar o capitalismo até torná-lo irreconhecível” (Helmut Dubiel). Por outro lado, na verdade, a própria crítica social radical é quem já foi distorcida e se tornou tão democraticamente domesticada que se tornar irreconhecível, em vez de ser renovada por meio da “superação de si mesma”.
Deve-se levar em conta que a oposição radical da Nova Esquerda desde 1968, bem como o próprio movimento verde alternativo posterior, experimentaram sua socialização política no rescaldo da era da prosperidade e sempre se beneficiaram implicitamente da forte posição de mercado global do Ocidente e especialmente da Alemanha Ocidental. Suas ideias, conceitos, palavras de ordem e demandas sempre tiveram como pano de fundo tácito, até certo ponto, uma “economia de mercado bem-sucedida”, mesmo quando lidavam com a teoria da crise. Desde o início, no entanto, qualquer “teoria do colapso” era mal vista e até mesmo considerada tabu por todas as facções, embora esse objeto de aversão existisse quase que exclusivamente de uma forma quimérica e nunca tenha sido sistematicamente investigado. Talvez, ao rejeitar a possibilidade de que o sistema produtor de mercadorias pudesse estar sujeito a uma finitude histórica absoluta e catastrófica, tenha sido decidido desde o início que a Nova Esquerda não cruzaria, mais do que a antiga, o Rubicão da crítica radical.
A crise, que se tornou um processo socioeconômico e ecológico, exigiu, no entanto, que surgissem algumas formas de reação. Em comparação com a virada do século XIX, o final do século XX foi marcado por uma ruptura estrutural de ordem superior: há indícios de que não estamos mais lidando com a transição para um novo desenvolvimento do sistema produtor de mercadorias com base em seus próprios fundamentos (como ainda se pressupõe esperançosamente), mas, na verdade, com um processo de colapso da coerência da forma-mercadoria do “trabalho” e do dinheiro, no qual o sistema, agora amadurecido, destrói irreversivelmente seus próprios fundamentos. Os realistas, assim como os remanescentes do velho radicalismo de esquerda ainda não superado, recuam para os critérios cada vez mais confusos da revolução e da razão burguesas (alguns de uma forma contemporânea, de acordo com a economia de mercado democrática, outros através de uma mera repetição insípida da velha variante marxista da luta de classes, limitado ao mesmo pensamento iluminista da forma-mercadoria); a oposição a esse tipo de repressão da crise, por outro lado, está cada vez mais chafurdando no irracionalismo, que não se trata de uma abolição da racionalidade burguesa, mas apenas o seu reverso, como se mostrou desde o início e como sempre (começando com Johann Georg Hamann no século XVIII) apontando as deficiências da racionalidade da forma-mercadoria, ao mesmo tempo, levando a padrões bárbaros de pensamento e ação nos processos de ruptura da crise. Essa alternativa falsa e desastrosa parece reemergir hoje na forma de uma nova grande crise do sistema produtor de mercadorias.
A década de 1980 não foi apenas a era do capitalismo de cassino e do consumismo extremo de hedonistas vulgares alimentado pelo comércio, mas também um novo apogeu das seitas políticas, socioeconômicas, culturais e religiosas (ver o ensaio de Roswitha Scholz nesta edição). Os promotores dessa mudança foram a Nova Esquerda e o próprio movimento verde alternativo subsequente, tanto ideologicamente quanto em termos pessoais. Mesmo as abordagens completamente emancipatórias do psicomovimento, a “politização do privado”, a crítica das relações de gênero, etc. na década de 1970, por nunca terem sido mediadas por uma crítica da forma fetichista moderna como tal, converteram-se silenciosamente em um boom de irracionalismo. Muitos revolucionários radicais convictos dos anos 1970, já no início dos anos 1980, usavam as vestes laranja dos discípulos de Bhagwan. E entre os alternativos verdes, o misticismo da natureza e o romantismo do chá de camomila já floresciam no início dos anos 1980; as excentricidades da reforma da vida da virada do século XIX experimentaram um renascimento apenas ligeiramente modernizado.
Com a crescente severidade das restrições sociais, desenvolveu-se nesses meios um “clima” que favorece as ideologias irracionais de crise, nas quais a crise real da socialização sob a forma-mercadoria é processada de forma fantasiosa e distorcida. Em vez de analisar, criticar e abolir o sistema produtor de mercadorias, surge a tentativa de afirmar-se na concorrência usando meios irracionais e fantásticos. O aspecto individualista aparece na conotação positiva das técnicas, comportamentos, “regras de vida” etc. transmitidos; como um processo ideológico coletivo, por outro lado, a consequência da exclusão e possível aniquilação dos “outros” emerge no sectarismo. O ponto de partida para isso é mais uma vez uma crescente “naturalização” do social, que agora se tornou visível como uma ampla corrente ideológica. A propaganda de uma “ordem natural” já estava à espreita nos primórdios de um conceito abstrato de natureza, que na década de 1980 começou a tomar o lugar do conceito sociológico de relações sociais. Um exemplo claro disso foi o encerramento da série “Teoria e História do Movimento Operário” pela editora Fischer Taschenbuchverlag e, paralelamente à “Fischer Alternativ” ter lançado uma série de grande porte intitulada “Antroposofia”, sintomaticamente ao lado de títulos como “Manual sobre dinheiro” e “Manual sobre especulação”; aparentemente uma reação às mudanças nas necessidades do público. O fim do marxismo do movimento operário e seus renascimentos neoesquerdistas certamente estavam na agenda; mas a abolição crítica não foi realizada, em vez disso, apenas outro cadáver ideológico da história da implementação do sistema produtor de mercadorias foi exumado: o do irracionalismo e do conceito abstrato de natureza, enquanto, ao mesmo tempo, recorria-se aos “cuidados paliativos” oferecidos pelo mercado. O sociologismo subjetivista e simplista do ultrapassado paradigma da “luta de classes” da forma-mercadoria não foi substituído por um nível mais alto de reflexão, mas por um retrocesso pior que o do sociologismo.
Não é preciso ir muito longe para chegar da substituição do conceito crítico de sociedade pelo conceito de natureza até a naturalização do social e da “ordem econômica natural”. O renascimento da antroposofia foi seguido pelo renascimento de Silvio Gesell e pelas ramificações desse corpo de pensamento, estendendo-se profundamente às correntes de esquerda e autonomistas. Neste estranho “retorno do econômico”, qualquer abordagem radical e emancipatória é eliminada; a face darwinista social e antissemita de uma crítica social perdida e distorcida se torna visível. A própria Nova Esquerda, que se mostrou incapaz de transformar o marxismo, tornou-se, ao longo de duas décadas de mediação, o catalisador da renovada economia política do antissemitismo, que, tal como as “inovações” da esquerda e dos seus diversos “meios”, está começando a adquirir autonomia social.
18.
Por mais embaraçoso que seja: até mesmo a “base econômica” imediata dessa mutação ideológica, no sentido mais banal, foi construída num processo de pequeno-aburguesamento biográfico da ex-esquerda. Não se trata de denunciar vidas e existências como tais; a questão, contudo, é se e como, de uma forma grotescamente didática, o “ser” econômico se transforma em “consciência” ideológica. O núcleo era constituído inicialmente pelos projetos remanescentes da antiga logística de movimentação: livrarias, editoras, pequenas gráficas, jornais urbanos e outros projetos de mídia, bares da moda etc., que, por falta de movimento e perspectiva crítica da sociedade, tiveram que se tornar pequenas empresas comuns se quisessem sobreviver. Mais tarde, vieram os projetos de “vida alternativa”; também bares, assim como padarias alternativas, marcenarias, oficinas mecânicas, fazendas, centros de conferências e seminários, empresas de terapia, etc.
A maioria deles desapareceu, mas aqueles que sobreviveram economicamente tiveram que se “profissionalizar”. Muitos dependem de empréstimos bancários; foram até fundados bancos alternativos na Alemanha e na Suíça. No percurso da “profissionalização” desse sistema de pequenas empresas, a ideologia da “autoexploração” foi (compreensivelmente) atacada. Mas, dadas as condições, isso poderia facilmente evoluir para a típica ideologia burguesa do “trabalho honesto” e do “salário justo por um dia de trabalho justo”, paradoxalmente entrelaçada com “posturas”, teorias e meios de comunicação pós-modernos. Em que medida essa síndrome é compatível com o gesellianismo e a economia política do antissemitismo? E para onde vão seus pensamentos em uma crise muito pessoal, quando a superestrutura financeira, igualmente pessoal, dos sistemas alternativos entrar em colapso?
Ainda hoje, algumas pessoas nesses círculos votam no PDS, por exemplo, o que não deixa de ser ambíguo, envolvido em uma mistura de clima de barraca de cerveja, ideologia de trabalho, história local e ódio contra “o” capital, que quase parece ter um nariz adunco. Quanto falta para cair na paranoia? E o micélio da economia política do antissemitismo ainda tem outras oportunidades de crescer. Uma parte significativa da cena cultural alternativa depende de financiamento estatal, como os “fundos alternativos” municipais; e esses fundos estão sendo cortados, até mesmo pelos parlamentares verdes realistas. A reação a isso não precisa ser emancipatória, ela também pode levar ao gesellianismo e suas consequências darwinistas sociais.
Esta possibilidade não pode ser descartada pela cena “empreiteira” (ex-)esquerdista e autonomista e pelos “caroneiros” da mídia pós-moderna (da cena musical, do jornalismo, da publicidade, etc.). Mesmo nesses círculos, não houve nenhuma tentativa de desenvolver uma crítica ou abordagens práticas para a superação e emancipação da sociabilidade da forma-mercadoria; em vez disso, o que se impôs foi a pseudocrítica de “seguir o fluxo” do capitalismo de cassino. Os resquícios de um pensamento marxista não superado e diluído, enriquecidos com teoremas pós-modernos (como os de Foucault, etc.) e mais ocupados com teoria cultural e de mídia do que com crítica da economia, puderam formar mais ou menos secretamente em alianças profanas com a consciência mercantil da década de 1980. Mas, quando o ciclo de empregos e turismo de longa distância e a divertida vida pós-moderna financiada no cheque especial for repentinamente interrompido, para onde isso nos levará?
É certo que os pequenos meios sociais relevantes têm pouca importância em termos puramente numéricos, mesmo que suas mutações ideológicas tenham impacto social. Entretanto, a clássica reprodução pequeno-burguesa ou dos profissionais liberais (em grande parte precária, reduzida a biscates) estritamente definida na órbita dos movimentos de esquerda e verde-alternativos está se fundindo socialmente como o espectro muito maior da nova classe média nos setores de serviços públicos (professores, assistentes sociais, etc.), está sendo tão brutalmente dizimada pela crise de crédito estatal quanto o cenário alternativo projeta; consequentemente, o escopo potencial da economia política do antissemitismo também está se tornando maior.
É claro que essa mentalidade social, psicológica e ideológica pequeno-burguesa que promete ser terrível, não pode mais ser combatida com o velho “ponto de vista da classe proletária”. Já é aparente e imanente que os setores clássicos da “ideologia operário-camponesa” (agricultura, mineração, siderurgia, estaleiros), longe de ainda apoiar a reprodução dessubstancializada do sistema produtor de mercadorias, têm sido há muito dependentes do crédito estatal (ou seja, do “capital fictício”) e podem, numa grande crise monetária, portanto, tornar-se vulneráveis à economia política do antissemitismo; talvez até numa versão que seja um misto de keynesianismo e estatismo nacional.
Entretanto, acima de todas as estruturas sociais que ainda podem ser identificadas analiticamente, impõe-se a individualização abstrata como a superestrutura de uma sociedade pós-moderna pequeno-aburguesada, não mais vinculada à pequena propriedade, mas à estrutura central diferenciada do sujeito-mercadoria, que se caminha para a sua culminância histórica e a crise da forma-mercadoria totalizada como tal. Tanto a catástrofe dos interesses particulares dos segmentos sociais individuais quanto o processo geral de atomização social que se sobrepõe a ela podem fornecer pontos de partida para uma versão modernizada da economia política do antissemitismo. E isso é algo com que se deve realmente contar. Já se torna claro que não há forma, por mais transparente e absurda que seja, de processamento à qual os sujeitos-mercadoria acuados não possam se render sem restrições.
No entanto, não é inevitável que a ideologia da crise irracional prevaleça na sociedade. Assim como não existe uma determinação mecânica da consciência a partir do ser social, o instinto primitivo do interesse imanente e obstinado da forma-mercadoria pode se desintegrar ainda mais (e também em escala massiva) no limite histórico do sistema produtor de mercadorias. O pré-requisito para isso, no entanto, é, em primeiro lugar, que os formadores de opinião nos que restou do movimento de esquerda e verde-alternativo, nas empresas e nos meios de comunicação alternativos, nas cenas pós-modernas-hedonistas, nos projetos culturais e instituições sociais, etc., tomem uma posição decisiva contra toda forma de manifestação da economia política do antissemitismo e que desenvolvam uma consciência do problema e rejeitem toda tentativa de contemporização nesse sentido. Em segundo lugar, diante da ameaça, não se pode mais ignorar que um novo discurso sobre a crítica radical do sistema produtor de mercadorias está na ordem do dia, um discurso que transforme e supere criticamente o marxismo do movimento operário, que foi tornado obsoleto, em vez de apenas prolongá-lo ou largá-lo às traças.
