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“O capitalismo é um parêntese na história da humanidade”

Entrevista especial com Anselm Jappe

Jappe dá detalhes sobre a crítica que faz, junto com Robert Kurz, à teoria de multidão de Michael Hardt e Toni Negri. Em sua opinião, eles não pensam uma saída do capitalismo, e inclusive entendem o valor como algo positivo. O “negrismo”, dispara, é um marxismo tradicional com verniz pop, e uma “impostura intelectual”. Entretanto, a teoria faz sucesso porque tece “lisonjas a toda essa nova camada que trabalha no campo da informática”. Outro equívoco, assinala, é a equiparação errônea que esses autores fazem entre o conceito de trabalho abstrato e trabalho imaterial.

Momentos antes de proferir a conferência Crise, Crítica Radical e Emancipação Humana, proferida no IHU Ideias de 01-10-2009, Jappe conversou com a IHU On-Line. O grupo Crítica Radical, de Fortaleza, apoiou o evento.

Filósofo e ensaísta nascido na Alemanha, realizou seus estudos na Itália e França, onde vive atualmente. Além de inúmeros artigos já publicados na revista alemã Krisis, é autor de Guy Debord (Petrópolis: Vozes, 1999) e As Aventuras da Mercadoria (Lisboa: Antígona, 2006). Leciona na Academia de Belas-Artes de Frosinone (Latium, Itália). Após a cisão interna do Grupo Krisis, posicionou-se ao lado dos autores que fundaram a revista Exit!, cujos principais integrantes são Robert Kurz, Roswitha Scholz e Claus Peter Ortlieb. Participa do Grupo Crítica Radical e da Revista “EXIT – Crítica do Capitalismo para o Século XXI – com Marx para além de Marx”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que afirma que o capitalismo é apenas um parêntese na história humana?

Com todas as mudanças propostas, pensam, mesmo assim, se permanecerá numa lógica capitalista ou se não volta a se cair na barbárie e no caos. Muitos daqueles que criticam o capitalismo hoje (como os altermundialistas e associações como a ATTAC e todas aquelas pessoas que se encontram na cúpula do Fórum de Porto Alegre) não o criticam verdadeiramente, porque se limitam a criticar o liberalismo, propondo, como alternativa, um capitalismo mais mitigado.

Em oposição a essa eternização do capitalismo é que falo de um parêntese, dizendo que esse sistema foi o rompimento absoluto com todas as sociedades pré-capitalistas. O capitalismo não é apenas uma sociedade entre outras, constitui-se a fratura mais fundamental da história da humanidade, principalmente porque introduziu um dinamismo e uma orientação que estavam ausentes nas sociedades precedentes, que eram mais estáticas.

O capitalismo não é um destino inevitável

Tudo isso permite demonstrar os diferentes pontos de vista, não somente marxistas, de que o traço fundamental do capitalismo não é algo natural do ser humano, mas pertence apenas a uma fase determinada da história humana. Deste ponto de vista, podemos dizer que o capitalismo é apenas uma fase da humanidade, e assim como veio ao mundo, pode, também, desaparecer. É claro que não quero dizer que o capitalismo seja um simples “incidente” depois do qual se podem mudar muitas coisas. Essa expressão mostra, simplesmente, que o capitalismo não é, necessariamente, um destino inevitável.

E quando falo em parêntese, não significa que havia uma espécie de sociedade feliz, e o capitalismo chegou como uma “erupção do mal”, e que esse parêntese vai se fechar para reencontrar uma espécie de felicidade. Isso seria muito bom, mas não é o que acontece. O capitalismo vai terminar, e já estamos observando esse fim. Não é algo que irá acontecer de um dia para o outro, mas os sinais de esgotamento são visíveis.

IHU On-Line – Quais são os principais impactos da crise econômico-financeira atual no capitalismo, na política, no trabalho? Esse sistema está ameaçado com tal cenário mundial?

Retorno da financeirização

Com a verdadeira crise que começa a emergir em plena luz do dia, há um grande aumento do desemprego na Europa. Agora se diz que ela passou, e que a economia está sendo retomada. Contudo, fora alguns ciclos que continuam possíveis, há uma “retomada” pelo fato de que são queimadas reservas de um modo nunca visto antes.

Para compreender isso, devemos prestar atenção em determinados fatos precisos. Na França, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o patrimônio acumulado dos franceses diminuiu de forma significativa. Até mesmo as classes médias, que podiam cobrir suas despesas, começam a vender seus bens imobiliários não apenas para investir, mas para saldar compromissos. Cada família está endividada em, pelo menos, 15 mil euros. Praticamente toda a Itália tem de trabalhar quase que gratuitamente para poder reembolsar essa dívida.

Nos EUA, a situação é ainda mais extrema. Quando falamos em bancos e que o governo intervenha, permanecemos, ainda, numa esfera larga das finanças. Entretanto, o que pode acontecer é uma reação em cadeia, porque sabemos que todas as dívidas irão criar uma espécie de corrente. Há um verdadeiro risco de que todas essas correntes se rompam e haja um grande pânico.

Até aqui, as instituições conseguiram evitar esse pânico. Muitas vezes, elas se vangloriam em ter aprendido a lição com o que houve em 1929 e que agora sabem administrar a crise, mas, na verdade, não há nenhuma solução estrutural, nenhum novo modelo de acumulação e nenhuma indústria que utilize de forma maciça a força de trabalho. Evita-se a crise, simplesmente, oferecendo cada vez mais crédito. No final das contas, é o mesmo que acontece com quem bebeu e acorda de ressaca, e soluciona o problema bebendo ainda mais. Isso pode funcionar por um período imediato, mas não pode ser uma solução a longo prazo.

IHU On-Line – O valor alcançou uma ontologização em nossa sociedade? Em caso positivo, como podemos falar em fim da metafísica se o valor atingiu esse status ontológico?

IHU On-Line – Você e Kurz contestam a teoria do Império e Multidão, de Hardt e Negri. Quais são os principais aspectos dessa crítica?

Na verdade, ele e Hardt não conseguem nem mesmo pensar uma saída do capitalismo. Pelo contrário. Falam de autovalorização da multidão. Inclusive entendem o valor como um valor positivo. Eles querem simplesmente liberar a produção em relação a essa espécie de parasitismo de uma classe que não trabalha e controla os meios de produção.

Esse é o marxismo mais tradicional que temos, pintado com outras cores ou com outro verniz, um verniz mais pop. Negri e Hardt utilizam o conceito de trabalho abstrato mas não entendem absolutamente nada desse conceito em Marx, considerando-o que é igual ao trabalho imaterial. Então, todo o “negrismo” pode ser qualificado como uma impostura intelectual. Mas tem sucesso porque lisonjeia a toda essa nova camada que trabalha no campo da informática, por exemplo. Há relações totalmente acríticas com o conteúdo da vida capitalista. Eles dão um tom positivo a tudo que tem a ver com a “cultura capitalista”, com as formas de sujeito, da dissolução dos antigos vínculos.




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